domingo, 6 de fevereiro de 2011

A sagração de D. Pedro, D. Paulo Cezar e D. Nelson Francelino




Assisti ontem de manhã (05.02.2011), na Catedral Metropolitana de São Sebastião do Rio de Janeiro, a uma das mais belas cerimônias que a Santa Mãe Igreja ainda guarda dos tempos remotos (apostólicos, patrísticos e medievais).

Trata-se da sagração episcopal, que é a plenificação do Sacramento da Ordem. Ou seja, o momento em que o homem que havia sido diácono e presbítero se torna bispo (episcopus), ad aeternum.

Eis um momento em que tenho muito orgulho de ser católico – um bom orgulho, quero crer... Essa é uma de nossas poucas Missas Solenes na qual a liturgia sacrossanta de nossos mais longínquos antepassados é bem-quista, bem-amada e praticada.

O mundo atual é o do capitalismo selvagem, desumanizante e, obviamente, dessacralizante. Foi-se o tempo em que o feudalismo era o sistema econômico e o cristocentrismo era a marca das sociedades europeias. Infelizmente, isso não volta mais.

Pelo menos pudemos herdar desses avoengos seus cerimoniais e cultos de adoração à Santíssima Trindade, juntamente com a veneração a Nossa Senhora e aos Santos e Santas de Deus.

A solenidade que assisti ontem durou quase três horas... como soe ocorrer nas grandes festas litúrgicas em que incidem procissões externas e internas aos templos, ladainhas e muita música.

Graças ao Bom Deus, eu não tive de suportar aquelas músicas ultra-populares e, a meu ver, ultra-piegas das Missas ordinárias. Presenciei durante 3 horas, de pé, pois não havia chegado às 8h30min e sim às 9h15min, já não havendo lugares vazios, uma das cerimônias de que mais gosto em minha religião: o rito da sucessão apostólica.

Uma repetição, um rito, uma súplica à Divindade para que um novo apóstolo nasça no meio de nós. Um ritual que tem dois mil anos e que, certamente, também deita raízes nos que antecederam ao Cristianismo. Similar, mas não igual – nada é igual (!) – às coroações, às aclamações, enfim aos diversos modos de tornar “sacro” o que é “profano”.

Lembrava-nos o famoso teólogo católico Prof. Dr. Pe. Alfonso Garcia Rubio, em uma das aulas de Antropologia Teológica que tive a graça de assistir em minha querida PUC-Rio, que nada é de fato SAGRADO na Igreja, sendo tudo CON-SAGRADO, uma vez que tudo que é nosso é humano, sendo divino somente o próprio Cristo. Por outro lado, a Igreja é o Corpo Místico de Cristo... Essas são minúcias teológicas que não adentrarei aqui. Mas evidente que entendi o ensinamento e que pude perscrutar o significado. Aliás, antes disso eu já era um católico crítico – jamais pretendo deixar de sê-lo. Sempre enxerguei os homens da Igreja como uma coisa e a Igreja (Esposa e Corpo Místico) como outra coisa.    

Voltando à cerimônia e sua beleza: o ordenante/sagrante principal era nosso estimado arcebispo e metropolita, D. Orani João Tempesta, um monge e abade cisterciense, portanto alguém bastante conhecedor das liturgias medievais. Os outros dois sagrantes eram D. Rafael Llano Cifuentes, Bispo Emérito de Nova Friburgo e membro da prelazia de Opus Dei, e D. Frei Elias James Manning, um franciscano nascido em Nova York e que governa a Diocese de Valença desde 1990. Devo dizer que a figura de D. Elias me transpareceu santidade...

Além desses, havia um sem-número de arcebispos e bispos – dentre eles Meu Arcebispo, D. Frei Alano Maria Pena OP, Metropolita de Niterói. Também o Senhor D. Eusébio Cardeal Scheid, Arcebispo Emérito do Rio, marcou presença. Centenas de sacerdotes, diáconos e seminaristas arquidiocesanos, sem contar as veneráveis freirinhas de diversas ordens. Da parte de nossos irmãos protestantes, pude perceber um hierarca anglicano e um representante luterano. Não sei se havia metodistas e presbiterianos.

O momento mais tocante para mim, na liturgia de ordenação presbiteral e na episcopal é o da Ladainha... ali estão sendo invocados todos aqueles que nos precederam na Fé – por representação, óbvio, pois ninguém acha que se poderia dizer o nome de TODOS os santos e mártires do Cristianismo, desde São Pedro e São Paulo até os atuais... Fulgurante ver os ordenandos prostrados ao chão, em sinal de humildade profunda perante o Altar do Santíssimo.

Belíssimo também o momento dos cumprimentos entre os neobispos e os antigos: estes beijam as mãos, osculando levemente o anel, de seus novos colegas.

Os três novos bispos auxiliares da Sé de São Sebastião são ligados à Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Que Deus os abençoe e que sejam símbolos de uma perene evangelização entre os jovens puquianos e de outras instituições de ensino cristãs.

Por fim, o que desejar a D. Pedro, D. Paulo Cezar e D. Nelson Francelino? Que sejam santos!

Estou longe de ser um reacionário católico, mas vivo na contramão do laicismo imperante. Continuo a acreditar piamente na santidade das mulheres e dos homens de Deus que se dedicam a Sua Obra, a Sua Igreja, aos Seus Filhos.

Amém! 

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Quem precisa de Cerimonial e Protocolo?


Quem precisa de Cerimonial e Protocolo?*


Bruno de Cerqueira**



O Brasil assistiu nos últimos dias a inúmeras cerimônias e solenidades nas quais se deu posse aos novos Governadores de Estado e à nova Presidenta da República Federativa.

Desde as diplomações, ocorridas em dezembro de 2010, o povo era informado pela televisão e demais mídias que os futuros chefes do Poder Executivo na federação e nos estados seriam solenemente empossados em 1o de janeiro de 2010.

Nessas situações, os brasileiros, que costumam ser descritos recorrentemente por informais, calorosos e não afeitos à ritualística e ao rigor protocolares — será que de fato são (?) —, notam a necessidade da “liturgia civil”, a premência do simbolismo de Estado, a magia que o Poder exerce sobre todos.

O problema é que o Cerimonial e o Protocolo não existem, não estão lá, somente quando há uma cerimônia, uma festividade, em que poucos, alguns ou milhares afluem. Eles sempre estão lá. Onde houver poder, comando, governo (KRATOS), haverá necessariamente aqueles que cuidam, orientam, assessoram, amparam, secundam, os que podem, comandam e governam.

Na bela sociedade sonhada pelos anarquistas, o autogoverno, a autarquização do humano, é evidente que os profissionais de C & P não teriam função social. Numa tal sociedade todos nós governaríamos em conjunto e a coletividade prescindiria das representações. O Estado não seria suprimido, mas ele não teria Chefe. A igualdade entre todos os cidadãos seria dada justamente pela ação política da qual todos seriam dotados, mas ela não estancaria a diversidade humana.

O anarquismo nada tem a ver com o comunismo de Marx, onde o Estado cessaria de existir no fim do socialismo, uma vez que o filósofo o considerava espaço privilegiado da atuação dos burgueses (classe dirigente da política). Após a ditadura do proletariado, adviria a sociedade sem Estado e sem classes, onde todos, absolutamente todos seriam iguais ou, melhor dizendo, todos seriam comuns – daí que a palavra comunismo possa ter também essa apreciação, e não somente a da ideia de uma partilha plena dos bens da terra.

A neo-humanidade sobre a qual Marx discorreu não existe e jamais existirá, ao menos de um ponto de vista da política tal como a conhecemos. Isso não significa que seu pensamento deva ser odiado ou menosprezado, apenas que deva ser estudado. Também é grande o erro em enxergar semelhança ou proximidade entre o comunismo marxiano e o comunitarismo cristão — explicitado nos Evangelhos, tanto quanto em A UTOPIA, de São Tomás Morus, e outros livros de grandes humanistas cristãos —, como tentaram fazer, sem sucesso, pensadores católicos ou protestantes filo-socialistas no século XX.

O “novo homem” do Homem-Deus (Jesus de Nazaré), o cristão pleno, o santo, está longe de ser um “comum”. A profecia paulina, em Colossenses 3,11 (CRISTO TUDO EM TODOS) é o caminho a ser seguido na peregrinação terrestre, mas não a própria peregrinação, que é cheia de percalços, como sabemos. A santidade é a meta, mas não a realidade – pelo menos não a realidade integral. Teologicamente, a santidade objetiva faz de cada cristão um “profeta, sacerdote e rei”, mas a santidade subjetiva só é alcançável durante uma vida de virtudes. A proclamação universal da venerabilidade de um “santo” — rememorado nos altares do mundo inteiro — dá-se muitos anos depois de sua morte, após longo processo canônico, e essa santificação resulta justamente em mais uma diferenciação, um grau superior na proximidade ao HIEROS supremo, O Altíssimo.

De maneira que voltando às linhas que iniciei acima, creio que possamos dizer com alguma certeza que onde haja rito haverá cerimonial e onde haja hierarquia haverá protocolo. E a vida humana, individual e coletivamente, é prenhe de ritos e de hierarquias.

Como estudioso de ritualística e de hierarquia desde muito jovem, me debrucei sobre a monarcologia, a eclesiologia, a genealogia dinástica, a antropologia da Política, a sociologia e a psicologia das Religiões etc. De tudo que li – e não foi tanta coisa assim – pude perceber que ao Cerimonial e ao Protocolo, enquanto matéria ou disciplina da formação do jovem graduando em Relações Públicas, Relações Internacionais, Comunicação Social, Turismologia ou Hotelaria, não se dá a importância devida. Somente na primeira faculdade citada (RP), existe, em geral, uma cadeira que costumam denominar “Organização de Eventos, Cerimonial e Protocolo”.

Ocorre, contudo, que parece não haver uma Teoria de Cerimonial e Protocolo academicamente estabelecida e este acaba sendo o motivo principal para evitar seu estudo nas universidades. Por outro lado, os que trabalham com C & P não costumam problematizar e sistematizar suas atividades e os conceitos que as orientam, permitindo lacunas e mal-entendidos na visão social que se tem a seu respeito. Os que apreciam a denominação de “cerimonialistas” se reúnem em associações de classe e entidades acadêmicas voltadas ao estudo de C & P, o que é extremamente louvável. O CNCP — Comitê Nacional do Cerimonial Público — entabula, inclusive, o reconhecimento da profissão de cerimonialista na Câmara dos Deputados. Há de se ter, todavia, uma visão bastante crítica sobre o chamado “cerimonialista” que nada conheça ou compreenda de Protocolo, por exemplo, sendo um mero organizador de casamentos e festas de crianças.

De maneira que C & P ficam restritos à área de atuação dos diplomatas e dos profissionais (internacionalistas, turismólogos, comunicólogos, historiadores e outros) que trabalham com eventos, cerimônias e solenidades nos governos nacionais, regionais e locais.

Mas afinal, quem precisa de Cerimonial e Protocolo?

Todos!

Se o senso-comum tende a imaginar C & P como “etiqueta”, “pompa e circunstância” e até, jocosamente, como “afrescalhamento˜, não há sinonímia. A etiqueta, aqui entendida como “pequena Ética” ou “Ética dos detalhes”, permeia o Protocolo, sedimenta-o, mas não se funde com ele. A pompa-e-circunstância, expressão que alude às marchas militares (Opus 39) compostas por Sir Edward Elgar (1857-1934), pode ser vista como o brilho do Protocolo, como seu relume, mas não o encarna, apenas lhe adjaz. Por fim, o eventual afrescalhamento ou a afetação dos que trabalham com C & P não podem ser vistos como apanágios seus e estão longe de constituir conditio sine qua nom da função. Uma atividade onde a tensão é constante, mas a serenidade é fundamental, a temperança, indispensável.

O Cerimonial é a arte/ciência/conhecimento que elabora o curso dos rituais, dos eventos, das solenidades; já o Protocolo é a arte/ciência/conhecimento que comunica esses eventos, é o código civilizacional por meio do qual o humano perscruta os ritos imemoriais, as tradições ancestrais e, mormente, a expressão da hierarquia — “governo do sagrado”, como sempre ressalto — através das normas de precedência, dos títulos, dos tratamentos.

 A resposta à pergunta do texto é, portanto, todos os que:

  • Comunicam-se;
  • Trabalham;
  • Congraçam.

Excetuando-se os bebês, que somente são envolvidos com Cerimonial no momento do batizado, ou algum outro ritual religioso iniciatório, todos os seres humanos necessitam conhecer, minimamente que seja, procedimentos cerimoniais e protocolares. No fenômeno da escolarização, a criança participa de formaturas, festas, torneios esportivos, missas ou serviços religiosos solenes etc. Chegando à faculdade, o jovem se depara com aulas inaugurais, posses, apresentação de simpósios, seminários, colóquios, palestras, um sem-número de eventos universitários. Isso sem falar nos eventos informais, que são óbvios ritos de passagem: os trotes, as chopadas, os churrascos. Para quem os ORGANIZA, fica claro que a preocupação com o pré, o durante e o pós-evento impõe um planejamento e uma infra-estrutura sem os quais existe a possibilidade de nada ocorrer.

Se a profissão dos chefes, assessores e agentes de C & P é auxiliar os governantes estatais, eclesiais, empresariais, sua função social é também digna de nota: admoestar seus amigos, parentes e conhecidos da importância da preparação e programação — do layout, diriam os anglófonos — dos eventos familiares, estudantis, corporativos etc.

Estive falando brevemente dos assuntos ora abordados com o caro Jornalista Aristóteles Drummond, em seu programa “O Brasil é isso”, da Rede Vida de Televisão (Outubro/2010). Em dado momento, ele me perguntou se eu achava que os governantes brasileiros cada vez mais davam importância ao Cerimonial e ao Protocolo, sobretudo porque nosso País sediará megaeventos esportivos e culturais na década de 2010. Não pude responder pormenorizadamente, até pela exigüidade do tempo. Mas não creio nisso, infelizmente. Aristóteles Drummond chegou a comentar que sabia de governadores que estavam nomeando embaixadores brasileiros aposentados como chefes de Cerimonial dos Executivos Estaduais. Creio que seja a exceção da regra. Para azar do Brasil, deve-se dizer.

Pois o desempenho e os encargos de um chefe de C & P, bem como de seus assessores e agentes, são extremamente diplomáticos, e envolvem conhecimentos de Relações Públicas, Relações Internacionais e Ciências Sociais de grande monta. Creio não ser nem de longe necessário comentar o que penso sobre não haver concurso para os departamentos de C & P que existem nos Três Poderes, nas três instâncias (federal, estadual, municipal). Alocar nesses órgãos, por indicação política, pessoas alheias a sua complexidade ou inaptas as suas funções é não apenas comprometer a estrutura organizacional, como também propiciar a visitantes ilustres (estrangeiros ou nacionais) alguns “maus bocados”...

Quando assisti à Chefia para Assuntos de Cerimonial da Presidência da ALERJ, entre 2004 e 2008, presenciei de tudo um pouco. Alguns deputados que sofrem de insuficiência cognitiva e falta de instrução educacional, chefes de gabinete grotescos e ávidos de poder, assessores parlamentares néscios e toscos — muitos dos quais me inspiravam mais compaixão do que raiva —, servidores de carreira tipicamente mal-acostumados com as benesses administrativas, enfim um “vale de lágrimas” no quesito excelência qualitativa. A exceção à regra era, geralmente, constituída dos diretores departamentais, pessoas amplamente assoberbadas pela incapacidade de seus subordinados.

Certa feita, um funcionário da Assembléia parece ter provocado nossa antiga chefe, Profª. Vera Jardim, dizendo que o Parlamento Fluminense deveria ter uma “diretoria de Eventos”, numa demonstração clara e inequívoca da ignorância e do senso-comum sobre os afazeres dos chefes, assessores e agentes de C & P. Aproveito a ocasião para render minhas homenagens à querida Vera, uma apaixonante workaholic!

A crítica acérrima ora proferida não visa atacar as instituições democráticas brasileiras e a ascensão eleitoral de nossos governantes. Muito pelo contrário! Ademais, não se dirige somente a eles...

Vejo falta de respeito, de apego, mas, sobretudo, de conhecimento, no que tange à Etiqueta, ao Cerimonial e ao Protocolo em diversos setores de nossa sociedade: nas religiões institucionalizadas, nas agremiações culturais e desportivas, nas escolas públicas e privadas, nas universidades, nas ONGs e até nos condomínios!

É necessária uma valorização do humano e uma ecovisão onde a polidez, a lhaneza e a cortesia constituam um imperativo categórico, no dizer kantiano. Para tanto, urge que os comandantes, os dirigentes, os governantes concentrem seus esforços e atenções na Educação. Fiquei realmente emocionado quando ouvi nossa Presidenta Dilma Rousseff declarar no Discurso da Mesa Diretora do Congresso Nacional, em sua belíssima Cerimônia de Investidura, que “só existirá ensino de qualidade se o professor e a professora forem tratados como as verdadeiras autoridades da educação!”

Destarte, concluo rogando aos nossos arcontes e hierarcas que tomem consciência da precisão e da imperatividade do Cerimonial e do Protocolo, não permitindo que incumbências tão elevadas sejam minimizadas na Administração Pública, direta ou indireta. E que haja investimentos na devida formação e capacitação dos que são chamados a trabalhar na área.


* Artigo enviado aos associados e amigos do Instituto D. Isabel I em janeiro de 2011.
As opiniões expressadas são as do Autor, não evidenciando o pensamento dos demais membros do IDII.

** Bruno da Silva Antunes de Cerqueira (31) é graduado em História pela PUC-Rio, pós-graduado em Relações Internacionais pela  UCAM e bacharelando em Direito pela PUC-Rio. É o gestor do Instituto Cultural D. Isabel I a Redentora e do Programa de Relações Públicas e Internacionais, Cerimonial e Protocolo do IDII

sábado, 1 de janeiro de 2011

Ser nobre, ser pobre




Ser pobre é uma honra.
Madre Maria Celeste, superiora das Irmãs Franciscanas Alcantarinas

Ser nobre é uma honra.
Papa Pio XII (1876-1958)



Em 2009, Danuza Leão lamentou em crônica a decadência de nossa atual (alta) sociedade em seus valores argentocêntricos, lembrando, com saudade, do tempo em que “ser nobre” era o bom, ainda que o “nobre“ fosse pobre. Está certíssima!

Nos dias que correm, podemos cada vez mais perceber a abundância de dois tipos de personalidade negativa e, infelizmente, a grande ausência de dois tipos de personalidade positiva. Respectivamente, trata-se dos podres-ricos e ricos-podres e, de outro lado, dos nobres-pobres e pobres-nobres.

Explico as categorias. Como toda mente eivada do racionalismo ocidental, ainda que se queira mais pneumática e menos problemática, mais cordial e menos intelectiva, sinto-me tolhido a ver o mundo categorizando tudo e todos. Mesmo que as categorias sejam relativas... 

As seguintes categorizações são muito orientadas para o viés político, mesmo que as imagine também de forma filosófica e teológica e que preferisse investir em suas descrições mais ao modo tomista, do que ao modo meramente politizante.

O podre-rico nasceu na pobreza, ascendeu socialmente por vias tortuosas e quase sempre inescrupulosas; uma vez chegado aos píncaros do que sequer podia imaginar em sua infância, se volta com todo ódio, consciente ou inconscientemente, aos seus irmãos de origem, não somente renegando-os como ajudando a espezinhá-los, seja através da ação ou da inação política e econômica.

Rico-podre é aquele que nasceu em berço esplêndido, gozou de uma infância feliz – ao menos materialmente feliz –, cresceu e obteve ótimos resultados em seus percursos acadêmicos e agora é um exímio profissional em sua área. Ganha dinheiro. É incapaz, contudo, de sofrer pelo Outro, de sentir o Outro, não se importa e nada faz pelos que sofrem, mendigam, vagam, padecem.

Já o nobre-pobre nasceu em boa linhagem, desprovida, contudo, de grandes recursos. Cresceu e se desenvolveu com algumas dificuldades, mas se tornou um bom e reconhecido profissional. Tenta manter o lustro de seus antepassados e faz da Caridade o cerne de sua vida cotidiana, seja através da religião que professa ou dos grupos sociais em que atua, defendendo e amparando os que nada ou quase-nada possuem. Para o nobre-pobre não é fácil ganhar dinheiro, eis que o vil metal lhe pesa sobremaneira.

E o pobre-nobre? É o excelso tipo de pessoa que nasce na miséria ou na pobreza, cresce e se desenvolve, obtém diplomas com grande dificuldade e se torna um profissional modelar. Sua vida é uma dedicação sem-fim aos seus irmãos de origem, seja na advocacia de seus direitos e na melhoria de suas condições de vida ou na coordenação das mais variadas propostas de inclusão social.  Também vejo o pobre-nobre como aquele que não conseguiu ascender, preso às amarras de sua honestidade e aos fantasmas de seus escrúpulos.

No primeiro grupo estão, para grande desespero de todos os cidadãos brasileiros, a maioria dos membros de nossas classes dirigentes, na federação, nos estados e nos municípios. Conheci dezenas deles nos 4 anos de prestação de serviços para o Cerimonial da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

No segundo grupo vemos, também para nosso grande pesar, os membros da alta burguesia brasileira, alienada de suas funções sociais, plenamente afastada do mecenato artístico e cultural, incapaz de patrocinar projetos de Educação e Saúde, mesmo quando haja a isenção fiscal concedida pelas recentes legislações. Empresários incapazes de construir escolas, creches ou hospitais sem que isso reverta em lucros e dividendos. Incapazes de seguir os exemplos de Candido Gaffrée (†1919) e Guilherme Guinle (1882-1960), dentre outros.

No terceiro grupo estão – ou deveriam estar –, dentre os brasileiros, os membros da antiga aristocracia rural – descendente dos barões, condes ou marqueses titulados por D. João VI, D. Pedro I, D. Pedro II e D. Isabel (I) ou dos capitães, coronéis e demais fidalgos do Brasil-Colônia – mas também os burgueses provenientes de religiosíssimos troncos imigrantes. Este grupo reconhece tácita ou explicitamente sua mais-que-natural chefia na Família  Imperial brasileira, uma estirpe de notória carência de recursos econômicos – obviamente me ocorre a imagem de D. Pedro Henrique, neto e sucessor da Redentora. Creio conhecer um número considerável de nobres-pobres.

Por fim, na quarta tipificação está o íntegro cidadão que honestamente ascendeu – me vem à mente o Ministro Joaquim Barbosa (STF) –, tanto quanto o trabalhador que não consegue “subir na vida” porque não admite a trapaça, a desfaçatez, a ladroagem. Resumidamente, o indivíduo que recusa o mundo, ao menos em parte. Lembro-me de Rosinete de Jesus, que me auxilia às vezes nos serviços do IDII. Mora com as irmãs franciscanas alcantarinas no Méier (zona norte do Rio) e sonha com um mundo novamente cristão, onde todos se veriam iguais na diferença, todos amantes absolutos de Deus e do Gênero Humano.

Falta, entretanto, uma categoria, e o leitor atento certamente me instará. Onde o rico-nobre? E o nobre-rico? Fundo-os e já me adianto na resposta. O rico que é verdadeiramente nobre sente-se mal em ser rico. Não estou valorando apenas financialmente, embora também esteja aludindo a pecúnias, claro. Buscando a santidade, o nobre-rico necessariamente se torna um nobre-pobre, pelo Amor de Deus, ao menos no Cristianismo que dizemos professar. Jesus foi claro ao dizer ao jovem rico do Evangelho de São Mateus que convertesse suas riquezas mundanas em bens dos pobres e O seguisse. Evidente que o mesmo Deus-Homem também declarou que sempre existiriam pobres e ricos (S. Marcos, 14:7).

Sempre comento com os amigos que apreciam minhas insanas divagações pseudo-teológicas que a Doutrina Social da Igreja Católica não condena a existência da pobreza e da riqueza como marcas sociais, mas certamente rechaça que existam milionários e miseráveis, que são, aliás, faces da mesma moeda: o pecado humano.

Daí que o nobre-rico necessariamente seja um converso profundo, algo raríssimo nos dias que correm, cada vez mais argentocêntrico, como disse no início da postagem.

Exemplos como os de Francisco e Clara de Assis, Isabel da Hungria, Edwiges da Silésia, além do próprio São Mateus Evangelista já citado, que era um publicano infiel antes da graça de conhecer e aderir ao Cristo, são pouquíssimo existentes em nossa época. Não à toa Madre Teresa de Calcutá (Agnes Gonxha Bojaxhiu), nascida em aristocrática família cristã de etnia albanesa, é exemplo para a humanidade do século XX.

Quem me lê já deve ter percebido as falhas no ementário ora proposto, mas ele não visa à sistematização. Isso seria outra tarefa, não a atual.

Quis apenas iniciar o novo Ano com uma antiga ruminação que me persegue e assim expor aos meus caros amigos ideias a criticar e sugerir.

Lef Nicolaievitch, Prince Myshkin

(...) was a young fellow, also of about twenty-six or twenty-seven years of age, slightly above the middle height, very fair, with a thin, pointed and very light coloured beard; his eyes were large and blue, and had an intent look about them, yet that heavy expression which some people affirm to be a peculiarity. as well as evidence, of an epileptic subject. His face was decidedly a pleasant one for all that; refined, but quite colourless, except for the circumstance that at this moment it was blue with cold. He held a bundle made up of an old faded silk handkerchief that apparently contained all his travelling wardrobe, and wore thick shoes and gaiters, his whole appearance being very un-Russian.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Enfim uma mulher pode voltar a governar o Brasil


Está feito. A maioria do eleitorado votante do Brasil elegeu Dilma Rousseff como Chefe de Estado e Chefe de Governo a ser empossada em 1º de janeiro de 2011, em Brasília.


Sua Excelência a Senhora Dilma Vana da Silva Rousseff, antiga Ministra de Estado Chefe da Casa Civil e das Minas e Energia, nascida em Belo Horizonte aos 14 de dezembro de 1947, é filha do imigrante búlgaro Petar Rusev, advogado e poeta, e da Senhora (nascida Dilma Jane da Silva).


A Professora Dilma Jane Silva Rousseff, mãe da Presidente eleita, nasceu em Nova Friburgo (RJ) e parece ter alguma ascendência mineira. Infelizmente ainda não possuo nenhuma informação pormenorizada sobre as ascendências búlgara e brasileira de Dilma Rousseff, mas certamente meus amigos do Colégio Brasileiro de Genealogia (CBG) logo providenciarão...


Neste segundo turno do pleito presidencial brasileiro recebi um sem-número de mensagens eletrônicas de familiares, parentes, amigos, conhecidos e desconhecidos. Tinham por objetivo demonizar Dilma Rousseff ou demonizar José Serra. Entendendo que isso configura um pecado grave, deletava todos. Sou membro do Partido Verde (PV) e fiz campanha para Marina Silva no primeiro turno. Agradeci a Deus Todo-Poderoso porque minha candidata, aquela por quem nutro viva simpatia e reverência desde pequenino, e meu partido, abraçaram a neutralidade programática no segundo turno.


Apesar de ponderar mil motivos para votar em José Serra e mil motivos para votar em Dilma Rousseff e, também, mil motivos para não votar em nenhum dos dois, recuso-me completamente a ver meu amado País cindido em dois, rasgado pelos ódios, preconceitos, rixas, vilezas em geral. Tal como faz a hierarquia católica e enquanto seguidor dessa religião, sempre admoesto meus amigos, sejam partidários do PT, do PSDB, do PV ou de qualquer agremiação político-partidária, a se lembrarem que o BRASIL é maior do que todos e deve estar acima de tudo, como defendiam D. Pedro II e D. Isabel I.


Agora me dirijo a todos os estimados compatriotas para exaltar o simbolismo da eleição de Dilma Rousseff. Após 122 anos do último governo feminino de nossa História — a terceira e última regência da Redentora (1887-1888) —, seremos novamente governados por uma mulher.


Foi  uma mulher que nos governou em agosto-setembro de 1822, presidindo o Conselho de Estado do Reino do Brasil que enviou as missivas ao Príncipe-Regente D. Pedro de Alcantara fazendo-o ver que a Independência era
o clamor dos que aqui viviam. Com efeito, D. Maria Leopoldina (1798-1826) é a primeira governante do Brasil: uma princesa austríaca, membro da mais importante e gloriosa dinastia católica do mundo — a Casa de Habsburgo. Em 1º de dezembro de 1822 ela foi coroada e sagrada imperatriz-consorte do Brasil com seu marido, na antiga Sé-Catedral Imperial do Rio de Janeiro, recentemente restaurada em sua magnificência, graças à visão superior do antigo Prefeito Cesar Maia.


A rigor, até mesmo a Rainha Senhora D. Maria I (1734-1816), conhecida historiograficamente como “a Louca”, mas que antes desse cognome era conhecida popularmente por “a Piedosa”, pode ser considerada primeira
mandatária do Brasil, visto que a Regência de seu filho D. João reinava em seu nome. Contudo, a partir de 1799, ela era oficialmente incapaz por doença mental, o que a fazia apenas rainha nominal. O Príncipe Regente D. João só foi aclamado D. João VI quando a idosa e enferma rainha morreu, em plagas cariocas, a 20 de março de 1816.

Portanto, a Imperatriz Senhora D. Maria Leopoldina e sua neta D. Isabel Christina Leopoldina Augusta, são as duas grandes governantes de nossa História. Que suas biografias sejam conhecidas e ilustradas e que sua exemplaridade sirva à recém-eleita Presidente (ou Presidenta) do Brasil.

Certa vez, fiquei impressionadíssimo com o fato de estar escrevendo a parte final do livro de nosso Instituto (D. Isabel I a Redentora: textos e documentos sobre a Imperatriz exilada do Brasil em seus 160 anos de nascimento. Rio de Janeiro: IDII, 2006) e entrar em uma livraria-sebo do Centro do Rio Antigo e me deparar com um livro do grande pensador mineiro Prof. João Camillo de Oliveira Torres. Trata-se da obra Interpretação da Realidade Brasileira: introdução à história das ideias políticas no Brasil. À página 308, ele diz:

 
O Brasil é algo que se prolonga, com Casa-Grande e Senzala, Sobrados e Mocambos, Apartamentos e Favelas. Talvez, um dia, uma D. Isabel rediviva saiba conseguir um Brasil em que o Poder Moderador (cuja importância soube tão bem compreender), e que é a hipóstese do Estado, como o brasileiro o sente, paternal e benevolente, dê casas parecidas a todos... Brancos e pretos. E termine a contradição.

Estou plenamente ciente de que a presidência do sociólogo Fernando Henrique Cardoso e a presidência do operário Luiz Ignácio Lula da Silva iniciaram este processo. Trabalhei para que a historiadora Marina Silva representasse essa “D. Isabel rediviva”. Contudo, interpreto os resultados das urnas como parte do grandioso processo de evolução sócio-histórica de meu País e quero formular, desejar e rezar para que a economista Dilma Rousseff possa adiantar muito do que se tem de fazer, mormente promovendo aquilo que o Senador Christovam Buarque chama de “revolução pela educação” e que nosso instituto denomina “neoabolicionismo”.


Agora, como cidadão que me considero “do Bem”, coloco minhas preces e meu labor — ORA ET LABORA não é o lema de perfectibilidade dos beneditinos (?) — a favor do País e estimo que nossa Presidenta eleita possa administrar com tenacidade e destreza esse imenso e portentoso Brasil. Que suas qualidades pessoais e o Cristianismo que professa sejam verdadeiramente o fio condutor da gradual extinção dos escândalos de corrupção governamental que clamam aos Céus por justiça e que sua condição feminina seja luz para os desamparados filhos da Virgem da Conceição Aparecida.


Viva o Brasil.


* Artigo enviado ao cadastro do Instituto D. Isabel I em novembro de 2010.

As opiniões expressadas são as do Autor, não evidenciando o pensamento dos
demais membros do IDII.


** Bruno da Silva Antunes de Cerqueira (31) é graduado em História pela PUC-Rio, pós-graduado em Relações Internacionais pela UCAM e bacharelando em Direito pela PUC-Rio . É o gestor do Instituto Cultural D. Isabel I a Redentora e do Programa de Relações Públicas e Internacionais, Cerimonial e Protocolo do IDII

 

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O casamento de D. Isabel, Princesa de Orleans-e-Bragança


Nesta Semana da Pátria, quero honrar a memória de D. Pedro I (*1798 †1834) comentando sobre o casamento de uma sua pentaneta.

Em 16 de outubro de 2009, uma sexta-feira, à noite, casar-se-á na Igreja da Imperial Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro — o famoso Outeiro da Glória dos guias turísticos do Rio de Janeiro — a Princesa D. Isabel Maria Eleonora de Orleans-e-Bragança, trineta de D. Isabel (*1846 †1921), conhecida como Redentora, por ter lutado pela Abolição da Escravatura no Brasil e assinado a Lei de número 3353, que redimiu a história brasileira de sua maior nódoa.

A noiva é a filha mais velha do Príncipe D. Fernando Diniz, que nasceu em Petrópolis em 1948 — mesmo que pertença ao que a imprensa chama de “Ramo de Vassouras” —, e da Princesa D. Maria da Graça, nascida e criada no bairro da Urca (Rio de Janeiro). D. Isabel tem duas irmãs, as belas D. Maria da Glória, 27 anos, arquiteta graduada pela Universidade Santa Úrsula, e D. Luiza Carolina, 25, que termina a graduação em Administração na PUC-Rio.

D. Isabel nasceu em 30 de janeiro de 1978, no Hospital São Lucas, Rio de Janeiro. Estudou em bons colégios da Zona Sul carioca e teve vida de classe média, como a maior parte de suas amigas de infância. Ela se graduou e pós-graduou em Psicologia na PUC-Rio e trabalhou na área de projetos sociais da White Martins. Ao contrário do que muitos imaginam, os príncipes brasileiros não são ricos, visto que a República nunca os ressarciu pelos inúmeros confiscos e perdas perpetrados desde 1889; atestar esse fato histórico-jurídico está longe de constituir monarquismo, uma vez que a União Europeia estipula como um dos pressupostos para a entrada de nações ex-comunistas a indenização de príncipes e nobres espoliados durante e após a II Guerra Mundial. Na descendência da Redentora, apenas o chamado “Ramo de Petrópolis” recebe o laudêmio enfitêutico de Petrópolis, e isso não perfaz grandes somas.

A noiva foi batizada com o prenome ISABEL por ser sobrinha e afilhada da Princesa D. Isabel do Brasil, filha de D. Pedro Henrique (*1909 †1981) — “de jure” D. Pedro III —, cujo centenário de nascimento está sendo comemorado. D. Pedro Henrique, aliás, nutria um carinho todo especial pela netinha que portava o nome de sua avó... Pois bem: D. Isabel do Brasil é prima-sobrinha e afilhada da Princesa D. Isabel de Orleans-e-Bragança (*1911 †2003), a famosa Condessa de Paris, autora consagrada no Brasil e na França, aquela que teria sido rainha-consorte francesa durante a maior parte do século XX, se a Revolução de 1848 não tivesse expulsado do milenar trono de Hughes Capet (c. 938 †996) os seus últimos herdeiros, a Casa de Orleans. Continuando a genealogia, a Condessa de Paris era neta e afilhada de D. Isabel a Redentora, que por sua vez era neta e afilhada da Rainha-mãe das Duas Sicílias, nascida Infanta D. Maria Isabel de Espanha (*1789 †1848).

ISABEL tem origem em um vocábulo feminino do hebraico arcaico, que designava “aquela que é consagrada a Deus”. Desse antigo nome (Elisheva) originam-se, provavelmente, o germânico Elisabeth, o inglês Elizabeth, o francês arcaico Isabeau e o atual Isabelle, os italianos Elisabetta e Isabella, o russo Yelizaveta, o húngaro Erzèbet, o eslavo Alsbietta etc. Todos eles prestam culto às santas da Igreja que, nascidas em linhagens principescas, viveram suas vidas na caridade: Isabel (séc. I a.C. †c. 20 d.C.), a prima de Maria cujo filho (João Batista) saudou Jesus ainda no ventre materno; Isabel da Hungria (*1207 †1231), a duquesa-consorte da Turíngia que foi a primeira penitente da Ordem Franciscana a ser canonizada e Isabel de Portugal (*1271 †1336), nascida infanta de Aragão e que foi a rainha-consorte de D. Diniz I (*1261 †1325). O curioso é que a noiva descende diretamente de Santa Isabel de Portugal, que era sobrinha-neta de Santa Isabel da Hungria, que era sobrinha de Santa Edwiges (*1174 †1243), a célebre padroeira dos endividados que nasceu na atual Baviera (Alemanha), como princesa de Andechs-Merânia e reinou como duquesa-consorte da Silésia (atual Polônia). Nas representações iconográficas, as três parentes são mostradas com coroas exatamente por isso.

Outra coincidência — ou teocidência? — que chama atenção é a de que a data escolhida pelos noivos, aleatoriamente, tenha sido 16 de outubro (festa de Santa Edwiges no calendário litúrgico católico), exatamente um dia após os 145 anos de casamento da Redentora com o Conde d´Eu, celebrado em 15 de outubro de 1864.

Mas, e o noivo, quem é? Digno dos pomposos almanaques da realeza europeia, seu nome tira o fôlego: Alexander Heinrich Martin Christoph Antonius Franziskus Xaverius Benedictus Hubertus Maria. Filho de um conde principesco alemão e de uma nobre belga, Alexander de Stolberg-Stolberg nasceu em Frankfurt, em 1974, e tem dois irmãos e uma irmã. Economista de formação, trabalha no mercado financeiro em Bruxelas, onde conheceu D. Isabel. Anexada ao presente texto, está uma foto dos príncipes no Natal de 2008, na Bélgica.

Alexander é um primo distante do Conde d´Eu, o Príncipe Gaston de Bourbon-Orleans (1842-1922), que era trineto de uma Stolberg-Gedern — um dos muitos ramos em que se dividiu a Casa de Stolberg durante os séculos. Eles são uma dinastia da região norte da Renânia que foram mediatizados pelo Congresso de Viena (1815), passando à esfera dos monarcas prussianos (dinastia Hohenzollern). Muitos Stolberg foram ministros e administradores regionais na Baviera e na Prússia, além de militares e religiosos. Parte da linhagem é católica, parte é luterana, como costuma ocorrer entre os príncipes germânicos após a Reforma Protestante do século XVI.

Alexander descende colateralmente de um grande bispo católico do séc. XIX, D. Willhelm von Ketteler (1811-1877), um dos apoiadores do Papa Leão XIII na encíclica Rerum Novarum (1891), considerada documento “fundador” da Doutrina Social da Igreja. Ketteler foi citado, recentemente, pelo Papa Bento XVI na Deus Caritas est.

Os noivos são extremamente unidos na fé religiosa e a catolicidade parece que dará o tom de seu casamento, visto que vários primos de diferentes nacionalidades estarão na Cidade Maravilhosa para cumprimentá-los e homenageá-los.

Do nordeste brasileiro, vieram congratulações esfuziantes pelo noivado, que ocorreu em outubro de 2008, por parte dos amigos cearenses da Família Imperial brasileira. Explica-se. A mãe da noiva, D. Maria da Graça, é, pela família materna, da aristocracia do Ceará, sendo bisneta de José Candido de Souza Carvalho (*1863 †1941), vice-presidente do Estado do Ceará no governo (1920-23) de Justiniano de Serpa (*1852†1923), e descendente das famílias colonizadoras da ribeira do Acaraú (CE).

Apesar de a notícia do noivado ter sido divulgada entre os associados do Instituto Cultural D. Isabel I a Redentora, poucos no Brasil estão a par do acontecimento histórico que terá lugar no Rio de Janeiro, no próximo dia 16 de outubro. Trata-se da primeira trineta brasileira de D. Isabel — e justamente sua homônima — a se casar com um príncipe europeu. No Velho Continente, outros da quarta geração da linhagem isabelista já o fizeram: Marie da França (*1959), que desposou Gundakar de Liechtenstein; Mathilde de Wurtemberg (*1962), esposa do conde principesco hereditário de Waldburgo-Zeil-Trauchburgo; D. Maria Paloma de Bourbon (*1967), que se casou com Simeon da Áustria; Eudes da França (*1968), Duque de Angoulême, que desposou Marie-Liesse de Rohan-Chabot e, mais recentemente, D. Aimone de Savóia-Aosta (*1967), que se casou com Olga da Grécia e da Dinamarca, ela mesma também descendente de D. Pedro I...

O Rio de Janeiro, a antiga Corte imperial e capital da República, novamente sediará um evento dessa magnitude. A simplicidade e a religiosidade dos noivos pode — e deve — ser sempre digna de toda a admiração, mas é indiscutível que essa boda representaria uma oportunidade de ouro para o turismo histórico-cultural carioca se pudesse ser bem aproveitada. Após a Missa de Esponsais no Outeiro, cantada pelo coro do Maestro Julio Moretzsohn, os convidados — cerca de 300 pessoas, pelo limite necessário — partirão para o chamado “Paço Imperial”, ou seja, o Paço da Cidade, onde os imperadores despachavam e onde foi assinada a Lei Áurea. Lá ocorrerá a simpática festa de casamento com ornamentação de Antonio Neves da Rocha, contraparente da noiva.

Dias antes, o Instituto D. Isabel (IDII) pretende celebrar uma Missa votiva na Antiga Sé, local do casamento da Redentora, para festejar as Efemérides Brasileiras de 2009 e homenagear os nubentes, dando assim a oportunidade de que absolutamente qualquer um possa felicitar Sua Alteza Real a Senhora D. Isabel e Sua Alteza Ilustríssima o Senhor Alexander.

No presente ano, comemoramos:

·         200 anos do Corpo da Guarda de Polícia da Corte (atual PMERJ) – 13 de Maio
·         190 anos do nascimento de D. Maria da Glória (D. Maria II de Portugal) – 4 de Abril
·         185 anos da 1ª Constituição do Brasil – 25 de Março
·         185 anos da Imigração Germânica no Brasil
·         180 anos do casamento de D. Pedro I com D. Amelia de Leuchtenberg – 2 de Agosto em Munique e 17 de Outubro na Antiga Sé
·         145 anos do casamento de D. Isabel com D. Gastão (Conde d´Eu) – 15 de Outubro
·         120 anos da morte de D. Thereza Christina Maria – 28 de Dezembro
·         100 anos do nascimento de D. Pedro Henrique – 13 de Setembro

·         95º aniversário de D. Maria da Baviera – 09 de Setembro

Alguns sócios do Instituto idealizaram também um jantar beneficente na Casa Julieta de Serpa, no Flamengo, em prol do IDII e do Ballet de Santa Teresa (www.bst.org.br), uma ONG seriíssima do bucólico bairro de Santa Teresa, onde meninas de origem humilde se tornam exímias bailarinas. Como não surgiram patrocínios, o evento corre o risco de não se concretizar... Foi-se o tempo em que D. Pedro II (*1825 †1891) e sua Família eram os maiores mecenas do Brasil e as atividades artísticas e culturais constituíam uma das prioridades dos governantes.

De qualquer forma, o Rio de Janeiro pode se regozijar de assistir a mais um consórcio da realeza. Talvez a maioria das pessoas não saiba, mas o Carnaval carioca surgiu, em certa medida, no longínquo 1810, conforme expliquei em palestra do Bicentenário, ano passado, no Museu do Primeiro Reinado:

Cumpriu-se a vontade do Príncipe Regente e, a 13 de maio de 1810, quando completava 43 anos, ele casou sua filha e seu sobrinho na Capela Real do Rio de Janeiro, no primeiro enlace principesco europeu das Américas... Imaginemos o quanto não se engalanaram os cariocas, fluminenses e todos os demais colonos brasílicos para assistir às festividades. Interessantíssimo é que Oliveira Lima, baseado nos escritos do Padre Perereca (Pe. Luiz Gonçalves dos Santos) dedica as primeiras páginas de seu cap. 26 (As solenidades da Corte), a descrever o exotismo dos folguedos desse casamento.
Isso porque se tratava, precisamente, da primeira festa por assim dizer “mestiça”, ou mesclada/miscigenada, entre uma solenidade curial européia e uma folia colonial ibero-americana. Junção de touradas, cavalhadas, danças africanas e até de um drama, certamente italianizado, celebrado na véspera dos esponsais (Triunfo da América), o casamento de D. Maria Thereza e D. Pedro Carlos foi uma “festa de arromba”, como diríamos hoje em dia.

Vejamos a descrição de Oliveira Lima:

O cúmulo do burlesco atingiram, porém, as festas, comemorativas ainda da boda, celebradas meses depois, e que decerto procriaram o carnaval fluminense. Duraram sete dias na praça do Campo de Sant´Anna e, para amostra do que foi o desfilar de carros alegóricos, basta referir que o primeiro, o dos mercadores, figurava um monte coroado pela estátua da América de arco, aljava, cocar,  e saiote de plumas, cercada de índios, quadrúpedes, e pássaros assomando dentre as ervas e flores, donde também brotavam esguichos que aguavam a praça. Havia nos outros carros, oferecidos pelos ourives, negociantes de molhados, latoeiros, carpinteiros, e outros como os denominaríamos hoje sindicatos profissionais, uma dança de chins, uma ilha do Pacífico com seus indígenas, um castelo donde emergia uma dança militar, um escaler de marujos remando e cantando antes de desembarcarem e bailarem, um grupo de ciganos com as mulheres nas garupas dos cavalos, até uma dança de homens disfarçados em macacos, dando saltos, fazendo caretas, executando cabriolas, até formarem a pirâmide humana — nil nove sub sole — e o macaquinho do tope desenrolar diante da tribuna real... os retratos dos sereníssimos consortes.


Enfim, após a inestimável perda que representou a tragédia do AIR FRANCE, onde tantos compatriotas e estrangeiros pereceram e finou-se o primo-irmão da noiva e futuro herdeiro dos direitos ao trono, D. Pedro Luiz (*1983 †2009), que Deus conceda à Família Imperial, ao Brasil e ao Rio de Janeiro bênçãos especiais por ocasião de mais um enlace principesco.

Vivas ao Brasil e aos Brasileiros!

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Pedro Luiz de Orleans e Bragança, um homem de Deus


Quo res cumque cadunt semper stat linea recta.
Lema dos Príncipes de Ligne.


Conheci D. Pedro Luiz em junho de 1996, em coquetel na Câmara Municipal do Rio de Janeiro que encerrava o dia de homenagens pelo aniversário de seu tio, D. Luiz. Os natalícios do imperador de jure do Brasil são sempre comemorados com Missa Solene no Outeiro da Glória, almoço festivo e, antigamente, uma sessão do Legislativo carioca que o Vereador Wilson Leite Passos organizava.

Ele me pareceu o que era: menino tímido em excesso, mas com um olhar sério e benfazejo. Cumprimentou-me, como a tantos e tantos jovens monarquistas que o tinham por príncipe-herdeiro, de maneira cordialíssima e, por ser eu tão pouco mais velho — só 4 anos —, creio que se impressionou desde o início com a devoção que eu demonstrava ao que ele representava. O que ele representava? O Brasil.

Sendo eu verdadeiro cultor de História e de Genealogia desde pequeno, conhecia muito bem todos os antepassados de D. Pedro Luiz e falava deles com desenvoltura; sem usar de falsa modéstia, o que deploro — dizia Jean de La Bruyère que a falsa modéstia é o último requinte da vaidade —, posso imaginar que eu representei para o pequeno príncipe brasileiro um conhecimento impressionante para um garoto de 17 anos e isso fez com que ele me respeitasse desde o princípio. Tornei-me um próximo da família dele por causa de Prof. Otto de Sá Pereira, atual conselheiro-decano do IDII que havia sido assessor-chefe de D. Pedro Henrique (1909-1981), o neto e sucessor de D. Isabel (1846-1921).

Em 1997, organizei praticamente sozinho uma visita oficial dos Príncipes do Brasil a minha terra natal, a Imperial Cidade de Nichteroy; foram D. Luiz, que recebeu o Título de Cidadão Niteroiense, e os pais de D. Pedro Luiz, D. Antonio e D. Christine. Adolescente idealista e patriota, dediquei-me dali em diante com garbo ao monarquismo brasileiro, sempre idealizando com meu amigo Luis Afonso Queiroz, designer, dezenas de materiais gráficos exaltando os feitos e fatos da presença dos Bragança entre nós.

Iniciei minha graduação na PUC-Rio em março de 1999 e já servia honorariamente, também com muito orgulho, à Princesa Mãe do Brasil como seu secretário, desde meses antes. D. Maria da Baviera é a viúva de D. Pedro Henrique e mãe de 12 filhos, avó de quase 30 netos e bisavó já de alguns. O falecido Bispo de Petrópolis, D. José Carlos de Lima Vaz (1928-2008), dizia que ela fora, para a sociedade de seu tempo, um exemplo de “mulher do Evangelho”, ou seja, aquela que em vida de orações e provações, passa incólume por todos os obstáculos que a peregrinação terrestre impõe. D. Pedro e D. Maria representaram para os membros das aristocracias do Rio de Janeiro, de São Paulo ou do Paraná — onde viveram nos anos 1950 e princípios dos 1960 —, uma realeza desapegada das coisas comuns e sempre voltada às “coisas do Alto”. D. Maria é autora, só para que se tenha uma ideia, de uma catequese popular, Miche de Pain (“Pedaço de Pão”), com a qual ela lecionava para os funcionários de sua fazenda em Jacarezinho (PR).

Convivi com D. Pedro Luiz, fosse em Petrópolis, onde “ensinava” História do Brasil a ele e seus irmãos, ressaltando a heroicidade e a humanidade dos monarcas brasileiros e europeus dos quais descendiam, fosse no Rio de Janeiro, onde ele sempre estava com seus pais e onde depois passou a morar. Não éramos amigos, de forma alguma, até pela diferença de idade, mas pode-se dizer que nos conhecíamos bem. Eu por meu lado sempre mantendo uma distância respeitosa com aquele que era o meu futuro Imperador e ele sempre muito cordato e gentil, verdadeiramente principesco. Não é de dizer-se que não possuísse defeitos, pois é evidente que necessitava deles para ser um membro da espécie humana, mas é certo que suas qualidades transpareciam muito mais.

Uma coisa desde cedo ficou clara para mim: D. Pedro Luiz era o herdeiro do Brasil. Aquele Brasil que D. Pedro I e D. Leopoldina construíram com suas vidas e dedicações; D. Pedro II e D. Thereza Christina com suas obras educacionais e culturais e D. Isabel e D. Gastão com seu abolicionismo redentor. Aquele a quem eu enxergava como um futuro D. Pedro IV — em homenagem ao seu avô, que teria sido D. Pedro III — ou D. Pedro Luiz I, era um “menino boníssimo”, como sempre o definem tios, tias e parentes em geral. Recordo que D. Maria, com seu sotaque singular, sempre falava dele com um prazer enorme, ressaltando que sua inteligência, amor à família, afeição aos esportes, faziam dele um “queridinho” de várias Famílias reinantes e ex-reinantes da Europa: Luxemburgo, Bélgica, Áustria, Liechtenstein etc.

Esse menino esplêndido virou homem, um homem de Deus. Era jovem como todos os outros, mas também sabia ser seriíssimo. Pretendia se casar dentro dos costumes da antiga tradição capetíngia, francesa, portuguesa e brasileira por continuidade dinástica: os enlaces com égalité de naissance, tão fora de moda nos dias turbulentos e ignaros em que vivemos. Com menos de 18 anos, concluí um trabalho histórico-genealógico justamente sobre a linhagem materna de D. Pedro Luiz, a Casa de Ligne, oferecendo-o a D. Christine — que, juntamente com sua cunhada, a Princesa D. Maria da Graça, são das senhoras mais finas que já conheci em minha vida... Ali eu explicito que os Ligne possuem Ebenbürtgkeit com todas as casas da alta e da média realeza europeia, pois ainda que tenham perdido a mediatização que o Congresso de Viena concedeu aos desapossados de Napoléon Bonaparte em 1815, são a família principesca belga por excelência, senhores indiscutíveis da história do Hainaut por mais de 8 séculos.

D. Pedro Luiz, o desejado, o esperado, o amado, o querido, o estimado, voltou para junto do Todo-Poderoso em pleno céu do Oceano Atlântico. Quanto simbolismo, quanta significação teológica! Qualquer indício de sebastianismo aqui não é mera coincidência: Gilberto Freyre dizia que acreditar em D. Sebastião não é errado, apesar de isso não resolver nossos problemas — um amigo meu sempre mo lembrava. Contudo, o que dizer da discrepância existente entre a política brasileira atual e aquela conduzida pelo magnânimo tetravô de D. Pedro Luiz, tão bem elucidada em livro recente de José Murilo de Carvalho?

Repugnando veementemente o pensamento e a conduta dos pessimistas ou sordidamente adesistas que dizem ser a corrupção governamental uma sina irremediável e insuperável de nosso País, continuo a crer em um Brasil restaurado em sua decência. Parece óbvio que não há perspectiva de restaurar-se o Estado Monárquico brasileiro nos próximos anos, o que não é sinônimo de deliberar que isto seja impossível; em contrapartida, advogar que o Poder Moderador exista entre as instituições jurídicas da Res Publica e que possamos lançar mão deste remédio constitucional é um dever cívico de todos nós!

Em abril de 2007, fui convidado pela Revista BR HISTÓRIA (Duetto Editorial), de São Paulo, a escrever um texto sobre o Plebiscito de 21.04.1993 e a história dos príncipes de Orleans-e-Bragança. Assim finalizo o artigo A árvore imperial:

A maior parte dos monarquistas brasileiros deposita em D. Pedro Luiz (1983), primogênito de D. Antonio João, todas as esperanças e aspirações. O jovem príncipe, graduado em Administração pelo IBMEC do Rio de Janeiro, vive atualmente no Grão-Ducado de Luxemburgo, onde trabalha no sistema financeiro. O vigor da juventude e a seriedade de seu caráter são sempre apresentados, por familiares e amigos, como os fatores preeminentes para sua futura entronização.

Os súditos de D. Pedro Luiz — um Orleans-Bragança-Wittelsbach-Ligne-Bourbon-Nassau-Weilburg —, três vezes descendente direto de D. João VI e três vezes descendente colateral de Maurício de Nassau, imaginam que ele poderá ser no Brasil do século XXI uma espécie de D. João IV, fundador da dinastia de Bragança e restaurador da independência de Portugal em 1640, após 60 anos de domínio espanhol.

Pois bem, o príncipe-herdeiro dos sonhos de milhares de brasileiros, que também era um súdito belga e residente luxemburguês, voltava para seu trabalho, algo que encarava com uma gravidade fora do comum. Lembro-me da vez em que ele e eu estávamos no mesmo “frescão”, indo para o trabalho, no Centro do Rio de Janeiro: ele começara a estagiar semanas antes e estava nervoso com o fato de ainda não ter uma função definida no emprego. Queria demonstrar competência, queria experimentar suas habilidades.

Sempre me perguntei, sobretudo nos últimos dois anos, quando os caminhos da vida não mais me fizeram encontrá-lo, se de fato queria/ansiava o que lhe imputavam, afinal eis um fardo plenamente incomum para os de nossa geração; a resposta agora nada interessa, sendo a própria Divina Providência quem indica que nossas aspirações familiares, sociais, religiosas, políticas, econômicas, estão todas subordinadas a Seus alvitres, misteriosos e gloriosos ao mesmo tempo.

Nos últimos meses, o Instituto D. Isabel tem sofrido perdas enormes: em janeiro se foi o secretário Vanderli Teixeira, 27 anos, jovem portentoso, diretor da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos do Rio de Janeiro; em abril faleceu Dr. Juarez Távora, nosso presidente de honra, 77 anos e décadas de serviço e amor ao Brasil. Filho e homônimo do Marechal Juarez Távora (1898-1975), ele era procurador do Trabalho aposentado e se dedicava comprazido às atividades culturais e filantrópicas. Agora se vai D. Pedro Luiz, 26 anos, sócio honorário inato do IDII pelos nossos Estatutos Sociais, vez que é descendente da Redentora. Recebia nossas mensagens quase diárias e nele tanto esperávamos: que pudesse um dia ser no Brasil uma liderança moral capaz de arregimentar forças e impor à classe política nacional uma honradez e seriedade que a imensa maioria não possui. Se seria, ou não, coroado imperador, não importa. O que importa é que poderia ajudar a impedir que a nossa política continue sendo um lugar privilegiado para a ação de escroques e venais, bandidos disfarçados de autoridades.

Mas... o herdeiro da bonomia de D. João VI e da timidez de D. Pedro II, que resplandecia amabilidade em seus sorrisos, encontrou-se com seus avós São Luís de França, São Nun´Alvares de Portugal, Santa Edwiges, Santa Isabel da Hungria, Santa Isabel de Portugal e tantos outros que a Igreja ainda não canonizou, mas que reinam absolutos em nossos corações. Talvez o Príncipe fosse bom demais para o Brasil atual. Talvez a poética hebraica, representada pela sabedoria salomônica no 3º Livro de Provérbios, defina a questão:

Meu filho, não te esqueças de meu ensinamento e guarda meus preceitos em teu coração
porque, com longos dias e anos de vida, assegurar-te-ão eles a felicidade.
Oxalá a bondade e a fidelidade não se afastem de ti! Ata-as ao teu pescoço, grava-as em teu coração!
Assim obterás graça e reputação aos olhos de Deus e dos homens.
Que teu coração deposite toda a sua confiança no Senhor! Não te firmes em tua própria sabedoria!
Sejam quais forem os teus caminhos, pensa nele, e ele aplainará tuas sendas.
Não sejas sábio aos teus próprios olhos, teme o Senhor e afasta-te do mal.
Isto será saúde para teu corpo e refrigério para teus ossos.
Honra o Senhor com teus haveres, e com as primícias de todas as tuas colheitas.
Então, teus celeiros se abarrotarão de trigo e teus lagares transbordarão de vinho.
Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes de que ele te repreenda,
porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima.
Feliz do homem que encontrou a sabedoria, daquele que adquiriu a inteligência,
porque mais vale este lucro que o da prata, e o fruto que se obtém é melhor que o fino ouro.
Ela é mais preciosa que as pérolas, jóia alguma a pode igualar.
Na mão direita ela sustenta uma longa vida; na esquerda, riqueza e glória.
Seus caminhos estão semeados de delícias. Suas veredas são pacíficas.
É uma árvore de vida para aqueles que lançarem mãos dela. Quem a ela se apega é um homem feliz.
Foi pela sabedoria que o Senhor criou a terra, foi com inteligência que ele formou os céus.
Foi pela ciência que se fenderam os abismos, por ela as nuvens destilam o orvalho.
Meu filho, guarda a sabedoria e a reflexão, não as percas de vista.
Elas serão a vida de tua alma e um adorno para teu pescoço.
Então caminharás com segurança, sem que o teu pé tropece.
Se te deitares, não terás medo. Uma vez deitado, teu sono será doce.
Não terás a recear nem terrores repentinos, nem a tempestade que cai sobre os ímpios,
porque o Senhor é tua segurança e preservará teu pé de toda cilada.
Não negues um benefício a quem o solicita, quando está em teu poder conceder-lho.
Não digas ao teu próximo: Vai, volta depois! Eu te darei amanhã, quando dispões de meios.
Não maquines o mal contra teu vizinho, quando ele habita com toda a confiança perto de ti.
Não litigues com alguém sem ter motivo, se esse alguém não te fez mal algum.
Não invejes o homem violento, nem adotes o seu procedimento,
porque o Senhor detesta o que procede mal, mas reserva sua intimidade para os homens retos.
Sobre a casa do ímpio pesa a maldição divina, a bênção do Senhor repousa sobre a habitação do justo.
Se ele escarnece dos zombadores, concede a graça aos humildes.
A glória será o prêmio do sábio, a ignomínia será a herança dos insensatos.


Sucede-o seu irmão D. Rafael Antonio. Mas não o substitui, pois os seres humanos, na riqueza incomensurável da Criação, são individualíssimos e, portanto, insubstituíveis. Este é o sentimento, imagino, do próprio Rafael, ou de Amélia, da irmã caçula e de todos os membros de sua Família.

A eles todos, envio minhas condolências viscerais, que sei serem as de tantos compatriotas meus, rogando à Mãe de Deus e Nossa, a Virgem da Conceição Aparecida, que os reconforte na dor indescritível por que passam.

Que o Sagrado Coração de Jesus conceda a Suas Altezas a graça de manterem seus bens mais preciosos: a dignidade de seus ancestrais e a fé política e religiosa no Brasil.

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Deve-se visitar: www.idisabel.org.br/pedroluiz