domingo, 10 de junho de 2001

A intelectualidade brasileira e a Identidade Nacional

A INTELECTUALIDADE BRASILEIRA E A IDENTIDADE NACIONAL
(Apontamentos)

• Trabalho de conclusão do curso de História do Brasil VII,
ministrado pela Exma. Sra. Profª. Dra. Graça Salgado na PUC-Rio •



TEXTOS
SEVCENKO, Nicolau: O exercício intelectual como atitude política: os escritores cidadãos
IN Literatura como missão, Ed. Brasiliense, São Paulo, 1995
ORTIZ, Renato: Memória coletiva e sincretismo científico: as teorias raciais do séc. XIX e Da raça à cultura: a mestiçagem e o nacional
IN Cultura Brasileira e Identidade Nacional, Ed. Brasiliense, São Paulo, s/d
OLIVEIRA, Lúcia Lippi: Desde quando somos uma nação? e Ufanismo: versão otimista da nação
IN A Questão Nacional na 1ª República, Ed. Brasiliense, São Paulo, s/d
CARVALHO, José Murilo de: O Rio de Janeiro e a República
IN Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi, Ed. Cia. Das Letras, São Paulo, 1999

PROPOSTA
Relacionar os textos, ressaltando o que há de crítico no processo de nascimento das Ciências Sociais brasileiras e seu entroncamento com as formulações intelectualizadas de nossa Identidade Nacional.

Analisar criticamente as proposições sociais da Geração de 1870 e seus resultados concretos na História brasileira que se seguiu a esta década.

O que as correntes do pensamento científico da época - período de transição da Monarquia para a República; da escravidão para o trabalho livre - tinham a dizer da evolução histórica do Brasil?

Investigar, ainda que sumariamente, em que a questão racial se relaciona com o desenvolvimento de nosso pensamento social e as muitas derivações que dessa questão se expressaram no contexto político-econômico da época.

ANÁLISE

1. INTRODUÇÃO
Apresenta-se no Brasil do Oitocentos o complexo amálgama de um Estado colonial dependente, atrasado, datando trezentos anos de dominação portuguesa e mostrando-se semelhante, na perspectiva colonizatória, aos países vizinhos seus no continente sul-americano.

O tufão napoleônico faz transportar para o Estado do Brasil a Corte lusitana: mais de dez mil pessoas, incluindo príncipes, nobres, clérigos, burocratas estatais e funcionários régios aportam em Salvador, dirigindo-se depois ao Rio de Janeiro e aqui permanecendo, desde o início de 1808.

Uma rainha impossibilitada de reinar por problemas de saúde mental, naqueles fins do absolutismo monárquico português, vem acompanhada do filho único, o Príncipe-Regente D. João que ostenta, enquanto herdeiro da Coroa lusa o título de PRÍNCIPE DO BRASIL (1), trazendo consigo materialmente boa parte do riquíssimo acervo da Casa Real e historicamente algumas das realidades inerentes ao contexto metropolitano de então.

Viu-se o Brasil, mais especificamente o Rio de Janeiro, transformar-se apressadamente em sede concreta do já problemático Império ultramarino português. O período joanino engrandeceu-nos notavelmente; nada pode negá-lo. Principalmente o Rio foi forjado como a Nova Lisboa, a Lisboa tropical.

O Estado do Brasil foi em 1815 elevado pelo Congresso de Viena à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarves, com a conseqüente aclamação de D. Maria I como Rainha do Reino Unido de Portugal, do Brasil e dos Algarves.

Em 1816, falece a Rainha louca e ascende ao trono luso-americano D. João VI, nosso hábil ainda que pouco sagaz primeiro Rei de fato. A História de Portugal, desde a invasão do General Junot até 1820 é uma sucessão de investidas militares, guerras e pequenas revoluções que em muito arruínam a pátria-mãe. As Cortes portuguesas, repletas de parlamentares liberais exigem em 21 o retorno do Rei a Lisboa e a recolonização do Brasil.
D. João cede em parte, embarcando desgostoso para Portugal, deixando, entretanto, o Príncipe Real D. Pedro, seu filho e herdeiro, como Regente do Brasil.

Segue-se no Brasil a fomentação intelectual de parte da elite dirigente, balizada em amplo apoio popular, de tornarmo-nos independentes da antiga metrópole, de constituirmo-nos Império soberano.

Acaba por aderir o próprio Casal Príncipe Real a tais idéias, que de tônus liberais, já apontam algum republicanismo. Nasce em 1822 - mais em 12 de outubro que em 7 de setembro, diga-se de passagem - a Monarquia Nacional brasileira, em seu estado de facto, ainda que não de jure. O Império do Brasil, nascido de um processo histórico considerado ultra-revolucionário para os parâmetros reacionários e restauracionistas da época, marcada pelo espírito do Príncipe de Metternich e da Santa Aliança, constitui-se numa "faca de dois gumes" ao poderio e supremacia européia na História Universal.

Se de um lado tal Império frustrava ideais republicanos e amedrontava os hermanos latino-americanos do Brasil - Simon Bolívar será um eterno preocupado conosco -, de outro apontava a não adesão de um Príncipe Herdeiro europeu ao imaginário reabsolutizante das elites governantes centro-européias de então.

A filha do Imperador da Áustria havia sido juntamente com D. Pedro aclamada imperatriz deste Estado soberano sul-americano. As tratativas diplomáticas para que tal situação se enquadrasse nos moldes monárquicos tradicionais não tardaram e cedo surgiram acordos de reconhecimento de nossa Independência, por parte de Portugal, em que a Áustria formulava que se desse uma cessão de direitos no caso brasileiro, eliminando assim qualquer resquício revolucionário de nosso processo emancipacionista (2).

Foi assim que em 1825, o idoso e debilitado Rei D. João VI reconheceu a independência do Império do Brasil do Reino de Portugal, garantindo ao filho a condição de Imperador, enquanto herança sua. Isto é, o Imperador D. João cedeu ao Imperador D. Pedro os direitos dinásticos de governança do Brasil, por meio de um decreto real.

O I Reinado brasileiro é conturbado, bem o sabemos, interna e externamente. As relações com Inglaterra, Portugal, Áustria e Estados Unidos estarão sempre em primeiro plano quando se pensa em relações internacionais - e comércio exterior mais especificamente - neste período.

Internamente, a política caminhará com a promulgação da Constituição de 1824 e as conseqüentes crises no Executivo e no Legislativo entre o Imperador e a classe dirigente.

A vida pessoal de D. Pedro I, marcada pela intempestividade e o clamor de heroicidade, pela herança mental absolutista, além de uma sexualidade pouco aceita na época (don-juanismo exacerbado), resultará em graves cisões no governo. A mal-fadada Guerra da Cisplatina e a morte da Imperatriz D. Maria Leopoldina (1825) - que se constitui na primeira manifestação de luto nacional brasileiro, historicamente - e os sucessivos atritos com parlamentares, jornalistas e profissionais liberais de projeção, no plano interno; a morte do Rei seu pai (1826), sua abdicação de Portugal em sua filha D. Maria da Glória e a conseqüente crise real portuguesa pelo apossamento da Coroa pelo irmão D. Miguel, no plano externo, acarretaram a D. Pedro tristes conseqüências no desenrolar de seu reinado. Seu segundo casamento em 1829 com a Princesa bávara e napoleônica Amélie de Leuchtenberg - que lhe trouxe um maior regramento na vida íntima - e as tentativas de minimizar problemas do Brasil e de Portugal simultaneamente não chegaram a conduzi-lo a um melhor estado de sua imagem pública, o que o levou à abdicação do Brasil em seu filho único e herdeiro, D. Pedro de Alcantara, em 1831.

Segue-se na História política brasileira as Regências em nome do Imperador-menino D. Pedro II, período de conturbação social e estouro de revoluções regionais Brasil adentro. Em 1840, adianta-se a maioridade do Imperador, que é coroado e sagrado aos 15 anos incompletos e inicia efetivamente seu reinado.

O II Reinado é, sob todos os aspectos, a fonte mais importante na História do Brasil do início de apreciação que se deva fazer acerca da construção da Identidade Nacional brasileira. É ali que se fundamenta, ou ao menos se origina, quase toda a perspectivação da nacionalidade brasileira. Muito mal estudados e historicizados estão até o momento, em nossa opinião, os estreitos liames entre a Realeza e nossa Identidade Nacional.

O que faremos aqui nada mais é que apontar alguns indícios de percepção nossa, voltando-nos aos textos principais e de apoio dados, em vista de melhor perceber o desenvolvimento de nossa Identidade Nacional e o nascimento das modernas Ciências Sociais brasileiras e suas problemáticas adjacentes, contextualizando a transição do II Reinado para a República instalada pelo golpe de 15 de novembro de 1889.
2. PROPOSTAS IDEAIS NO II REINADO:
ROMANTISMO, INDIANISMO, NATIVISMO

Na espreita da formação de uma identidade nacional, inicia-se no reinado do Imperador D. Pedro II uma ideologia de Estado que visa edificar a brasilidade enaltecendo o elemento indígena, ou seja, aquilo que possuía o país antes da chegada do elemento branco.

O romantismo encontra assim terreno fértil no Brasil para produzir em mentes perspicazes uma História, uma Arte, uma Literatura nacionais. O Imperador, principal mecenas e um dos maiores articuladores deste edifício estatal, patrocina os jovens escritores, pintores e musicistas na construção desse Brasil brasileiro.

É o tempo de José de Alencar, Gonçalves Dias, Joaquim Manoel de Macedo, Castro Gomes, Vítor Meirelles, Araújo Porto-Alegre, etc. Também aí nascem o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e as inumeráveis imperiais instituições de cunho nacionalizador. Nas décadas de 40, 50 e 60 florescem os ideais românticos de um Brasil grande, forte, soberano. Não se problematiza a escravidão negra de maneira séria, não se lega-lhe o status de questão social.

Advém a década de 70 e alguns intelectuais começam a pensar o Brasil de outra forma. Identificam nosso atraso, numa tomada de consciência nitidamente marcada pelas correntes de pensamento cientificistas em voga na Europa de então: positivismo, evolucionismo, darwinismo social.
3. A GERAÇÃO DE INTELECTUAIS
BRASILEIROS QUE SE INICIA EM 1870

A erudita obra Literatura como missão, de Nicolau Sevcenko, primeiramente publicada em 1983, e que pode certamente já ser considerada um clássico nas Ciências Sociais, investiga as origens dos pensamentos que dominarão o cenário intelectual brasileiro posterior á década de 1870. O livro é, em nossa opinião, um verdadeiro manual aos interessados em História do pensamento social brasileiro; a riqueza vocabular aí impressiona.

Lembremo-nos que este ano é paradigmático no sentido de ver lançar, no interior de São Paulo, o Manifesto Republicano e a fundação do partido que advogará a implantação da forma republicana de governo em nossa pátria.

Os escritores de então, por Sevcenko chamados de mosqueteiros intelectuais, em alusão à própria auto-intitulação de um grupo de escritores cariocas, se acham investidos de um projeto modernizante do Brasil, que viesse a extinguir definitivamente entre nós o atraso, a herança colonial escravista, até a própria forma monárquica de governo, o clericalismo social dominante, etc.

Diz Sevcenko:

Arrojados num processo de transformação social de grandes proporções, do qual eles próprios eram fruto na maior parte das vezes, os intelectuais brasileiros voltaram-se para o fluxo cultural europeu como a verdadeira, única e definitiva tábua de salvação, capaz de selar de uma vez a sorte de um passado obscuro e vazio de possibilidades, e de abrir um mundo novo, liberal, democrático, progressista, abundante e de perspectivas ilimitadas, como ele se prometia. A palavra de ordem da "geração modernista de 1870" era condenar a sociedade "fossilizada" do Império e pregar as grandes reformas redentoras: "a abolição", "a república", "a democracia", O engajamento se torna a condição ética do homem de letras. Não por acaso, o principal núcleo de escritores cariocas se vangloriava fazendo-se conhecer por "mosqueteiros intelectuais".'
Os tópicos que esses intelectuais enfatizavam como as principais exigências da realidade brasileira eram: a atualização da sociedade com o modo de vida promanado da Europa, a modernização das estruturas da nação, com a sua devida integração na grande unidade internacional e a elevação do nível cultural e material da população. Os caminhos para se alcançar esses horizontes seriam a aceleração da atividade nacional, a liberalização das iniciativas - soltas ao sabor da ação corretiva da concorrência - e a democratização, entendida como a ampliação da participação política. Como se vê, uma lição bem acatada de liberalismo progressista. Para completar, a assimilação das doutrinas típicas do materialismo cientificista então em voga, que os lançou praticamente a todos no campo do anticlericalismo militante.
Toda essa elite europeizada esteve envolvida e foi diretamente responsável pelos fatos que mudaram o cenário político, econômico e social brasileiro: eram todos abolicionistas, todos liberais democratas e praticamente todos republicanos. Todos eles trazem como lastro de seus argumentos as novas idéias européias e se pretendem os seus difusores no Brasil. Tomemos apenas alguns exemplos dentre alguns dos mais notáveis desses homens. Inicialmente, Tobias Barreto, o sergipano em torno do qual iria se aglutinar a chamada Escola do Recife e cuja influência marcaria a obra de intelectuais de relevo como Sílvio Romero, Clóvis Bevilacqua, Arthur Orlando, Araripe Junior, Capistrano de Abreu e Graça Aranha, dentre muitos outros.
(
Literatura como missão, pp. 78, 79)
Após isso, ele tece uma breve história daquilo que considera a postura social de grupo que os intelectuais, nos diferentes cantos do orbe, assumirão como conseqüência da passagem de sociedades arcaicas para as modernas. Naquelas, os altos índices de analfabetismo, os ainda existentes laços vassálicos, impediam o avanço do capitalismo industrial. Fosse no Império Russo ou nos Reinos de Espanha e Portugal, houve contemporaneamente aos nossos mosqueteiros intelectuais plêiades de homens das letras, auto-investidos na função de dar luzes aos seus povos, leva-los à civilização.
A geração de 1870 começa a decepcionar-se mais profundamente com o correr dos anos 80 e 90 no Brasil. O atraso brasileiro, que a imensa maioria deles identificava com a escravidão e a própria Monarquia; o clericalismo permanente da sociedade e a falta de urbanização dos grandes centros, sobretudo Rio de Janeiro, se lhes parece repugnante.
Acompanham o desenrolar da crise econômica que se segue à Abolição da Escravatura (1888) e apesar de comemorarem uma grande vitória, persistem no engajamento político republicano. Mesmo constatando a obviedade de o povo jamais unir-se numa onda revolucionária para proclamar a República, continuam nossos mosqueteiros intelectuais a crer num surto de civismo nacional que provocasse a queda da Monarquia, e com ela se enterrasse o passado.

Tal não ocorre com a vitória da quartelada de 15 de novembro de 1889 e eles, apesar de num primeiro momento aderirem ao golpe, logo sentem o peso do militarismo: a intolerância do Mal. Deodoro e a fúria desmedida do Mal. Floriano. As sucessivas crises políticas e econômicas - mormente o Encilhamento em 1891, que empobreceu um sem-número de famílias antigas da aristocracia rural, enchendo de dividendos os novos-ricos da época, quase todos scrocks - e as suas conseqüências nefastas, de maneira especial nas censuras que impingiam aos jornais e nas perseguições, prisões e tolhimentos de alguns dentre esses mesmos mosqueteiros fizeram com que Lopes Trovão, um dos mais ativos próceres republicanos, já em 1890 declarasse: "essa não é a República dos meus sonhos".

Os mosqueteiros intelectuais transformam-se em paladinos malogrados...

É significativo que Sevcenko perceba o quanto se apresentou caótica e tirânica a República no Brasil aos olhos de nossos homens das letras. Diz ele:
(...) Não há, praticamente, partidos políticos no sentido clássico do conceito e esse foi um dos traços mais notáveis da Primeira República, porque não se mantinham interesses rigorosamente conflitantes nos meios políticos e entre os grupos que sobrenadavam à sociedade. Não que não houvesse oposição, os próprios intelectuais a representavam com a máxima substância, mas ela foi simplesmente varrida da vida pública e dos meios oficiais para a margem e a miséria, sob o estigma de anti-social e perniciosa.
A República, contraditoriamente, viera consagrar a vitória da irracionalidade e da incompetência, criando uma situação "onde tudo se deseja inócuo, tudo incaracterístico, tudo traçado, tudo prostituído, para fáceis mistificações, para predomínios idiotas e momentâneos, mas ferrenhos e desesperadores das verdadeiras almas".
Um dos temas pois, mais característicos e disseminados da critica intelectual do período passou a ser a recriminação da "inversão das posições nesse país". Por toda parte ele ressalta, explícito ou apenas velado, nos textos ou nos versos.
Os homens de talento sentiam-se unanimemente repelidos e postos de lado em favor de aventureiros, oportunistas e arrivistas sem escrúpulos. (...)
O momento era o da "imbecilidade triunfante", diria Euclides da Cunha. Teve ampla circulação o neologismo "mediocracia" com carga semântica que significava o "regime das mediocridades". Pessimismo e inconformismo se reuniam numa atitude crítica visceral: "Entre nós a incompetência é credo, doutrina, religião, poder". Foi esse mesmo impulso que arrastou os grupos intelectuais a prestarem apoio irrestrito a Rui Barbosa em suas campanhas políticas, no qual viam representado um membro da seleta inteligência nacional lutando contra o mesmo desprestígio e o mesmo chão estéril: "um indesejável viciado pelo crime de valer mais que os outros".
(
Idem, pp. 87,88)
Prosseguindo nas citações dos autores estarrecidos com a República da miséria artística e intelectual, Sevcenko inicia a abordagem do tema de crise da literatura e fragmentação da intelectualidade subseqüentes aos processos afirmatórios - auto-afirmatórios, diria-se em Psicanálise - da República de 89.

O Rio de Janeiro das primeiras décadas do séc. XX, espécie de sede do saber nacional enquanto Capital Federal, será procênio das mudanças que efetivamente ocorrerão como conseqüência do aceleramento da proximidade com a modernidade brasileira. A perda dos valores tradicionais, o arrivismo ilimitado, as novas faces do poder instituído, tudo será parte constituinte dessa nova fase da História do Brasil.

Mesmo com as perturbações de censura e a abundância do jornalismo meramente cronista, desenvolve-se um "novo jornalismo", voltado para a crítica política.

Este novo jornalismo, contudo, encarna de fato a ampliação dos meios de comunicação (jornais, revistas, periódicos), o que faz literalmente com que os intelectuais estejam empregados em serviços menores, teoricamente, i.e., necessitem de trabalho para o ganha-pão. A crítica, talvez por isso, nota Sevcenko, diminui o acirramento.

No Rio de Janeiro da Belle Époque, o chic e o smart não aceitam a presença irritante do antigo, do tradicional. Isto vira sinônimo de velho, ultrapassado... E se, apesar disso, dividiram-se sempre os nossos intelectuais em modernos deslumbrados e modernos críticos, pode-se perscrutar perfeitamente que ao segundo grupo não sobrou mais que a ação na História, pois coube ao primeiro o embasamento do savoir-faire pernicioso da República.

Dentro dos apontamentos que começamos a tecer aqui, fica nítido que a obra republicana em nada auxiliou o fomento cultural, artístico e principalmente intelectual na sociedade brasileira de princípios do século. Bem ao contrário, ela foi mesmo responsável pelo gradual afastamento e redirecionamento da atividade do pensador brasileiro que não fosse cooptado para os seus serviços. Afora que a crítica, em seu sentido elevado, jamais fora bem vista na República; militares ou civis, os novos "donos do poder" no Brasil eram bastante avessos ao exercício intelectual enquanto constância de demandas de cidadania.

Nesse ínterim, questiona-se se o fim da Monarquia, o não advento do III Reinado e da Imperatriz D. Isabel I, não foi uma grande interrupção no processo de consolidação da Identidade Nacional brasileira, com o riquíssimo apanágio da tradição, simbolicamente representado pela Dinastia, tendo sido descartado.
4. O PROBLEMA MESOLÓGICO E RACIOLÓGICO
O antropólogo Renato Ortiz, em sua obra Cultura Brasileira e Identidade Nacional, analisa a questão, enfocando na chamada geração de 1870 da intelligentsia brasileira, três nomes que considera síntese do pensamento da época: Sílvio Romero, Euclides da Cunha e Nina Rodrigues. Ortiz os considera "precursores das Ciências Sociais brasileiras".

Particularmente acatando a sugestão de Evaldo Cabral de Mello, preferimos, contudo, considerar Joaquim Nabuco como o "pai da Sociologia brasileira" (3), uma vez que é dele toda a reflexão inicial sobre a escravidão negra e seu profundo enraizamento em nossa sociedade. Não valendo a pena discutir-se isso aqui e agora, voltemos à análise do texto de Ortiz. Ele diz:
Ao se referir ao declínio da hegemonia do romantismo de Gonçalves Dias e José de Alencar, que podemos situar em torno de 1870, Sílvio Romero arrola uma lista das teorias que teriam contribuído para a superação do pensamento romântico. Dentre elas, três tiveram um impacto real junto à intelligentsia brasileira: e de uma certa forma delinearam os limites no interior dos quais toda a produção teórica da época se constitui: o positivismo de Comte, o darwinismo social, o evolucionismo de Spencer. Elaboradas na Europa em meados do século XIX, essas teorias, distintas entre si, podem ser consideradas sob um aspecto único: o da evolução histórica dos povos. Na verdade, o evolucionismo se propunha a encontrar um nexo entre as diferentes sociedades humanas ao longo da história; aceitando como postulado que o "simples" (povos primitivos) evolui naturalmente para o mais "complexo" (sociedades ocidentais), procurava-se estabelecer as leis que presidiriam o progresso das civilizações. Do ponto de vista político, tem-se que o evolucionismo vai possibilitar à elite européia uma tomada de consciência de seu poderio que se consolida com a expansão mundial do capitalismo. Sem querer reduzi-lo a urna dimensão exclusiva, pode-se dizer que evolucionismo em parte legitima ideologicamente a posição hegemônica do mundo ocidental. A "superioridade" da civilização européia torna-se assim decorrente das leis naturais que orientariam a história dos povos. A "importação" de uma teoria dessa natureza não deixa de colocar problemas para os intelectuais brasileiros. Como pensar a realidade de uma nação emergente no interior desse quadro? Aceitar as teorias evolucionistas implicava analisar-se a evolução brasileira sob as luzes das interpretações de uma história natural da humanidade; o estágio civilizatório do país se encontrava assim de imediato definido como "inferior" em relação à etapa alcançada pelos países europeus. Torna-se necessário, por isso, explicar o "atraso" brasileiro e apontar para um futuro próximo, ou remoto, a possibilidade de o Brasil se constituir enquanto povo, isto é, como nação. O dilema dos intelectuais desta época é compreender a defasagem entre teoria e realidade, o que se consubstancia na construção de uma identidade nacional. A interpretação do Brasil passa necessariamente por esse caminho, daí a ênfase no estudo do "caráter nacional", o que em última instância se reportava à formação de um Estado nacional. O evolucionismo fornece à intelligentsia brasileira os conceitos para compreensão desta problemática; porém, na medida em que a realidade nacional se diferencia da européia, tem-se que ela adquire no Brasil novos contornos e peculiaridades. A especificidade nacional, isto é, o hiato entre teoria e sociedade, só pode ser compreendido quando combinado a outros conceitos que permitem considerar o porquê do "atraso" do país. Se o evolucionismo torna possível a compreensão mais geral das sociedades humanas, é necessário porém completá-lo com outros argumentos que possibilitem o entendimento da especificidade social. O pensamento brasileiro da época vai encontrar tais argumentos em duas noções particulares: o meio e a raça.
(
Cultura Brasileira e Identidade Nacional, pp. 14,15).
Depois prossegue Ortiz afirmando que meio e raça permearão toda a epistemologia da intelectualidade brasileira de fins do XIX e princípios do XX. Na identificação dos fatores constituintes da formação histórica de nossa sociedade, tais autores empreenderão construções negativistas de nossa realidade social, política e econômica, em vista de encaixá-la nos moldes cientificistas que se lhes serve de arcabouço.
Verá a tríade Euclides-Romero-Nina tudo o que falta na História do Brasil, segundo eles: ESTADO, NAÇÃO, POVO. Análises que se não de todo são comprometidas com pensamentos eurocêntricos da época, resultam numa péssima apreciação de nosso ethos e numa constatação da não existência de uma Identidade Nacional brasileira.

Seria hipócrita de nossa parte, ao sermos introduzidos na escrita de tais autores por Renato Ortiz, Nicolau Sevcenko e Lúcia Lippi Oliveira, não se indignar com as posturas anti-monárquicas e anti-católicas deles. Isto porque tais posturas, se bem que coerentes com a pensée cientifique, eram destoantes numa apreciação imparcial do legado que a Monarquia - tanto a lusitana (1500-1815), quanto a luso-brasileira (1815-1822), mas sobretudo a nacional (1822 em diante) - e a Igreja Católica deixaram ao Brasil.

Afirmar que realidades identitárias nacionais eram no Oitocentos ainda incompletas e lacunares seria bastante pertinente; fazer todavia vista grossa à identificação popular em torno da Realeza e desprezar a religiosidade popular representaram, no mínimo, leviandade e parcialidade nas obras de tais autores.

Aliás, aproveitando o ensejo, pode-se dizer que Ortiz já aponte para a parcialidade da tríade originária quando ressalta a importância da obra de Manuel Bonfim na apreciação do racismo como fator inerente ao pensamento do período. O vanguardismo de Bonfim é considerado relevante para uma melhor historicização das propostas intelectuais no Brasil de fins do Oitocentos. Segundo Ortiz, tal autor teria, com a publicação, em Paris da obra América Latina, Males de Origem, enveredado pela análise científico-social dos países latino-americanos fazendo a analogia com organismos biológicos. Segundo Ortiz, ele espelha-se em Comte, só que de uma forma que os demais pensadores brasileiros jamais o haviam feito. Existiria portanto no Continente males originais de parasitismo, frutos da colonização predatória de portugueses e espanhóis.

Em relação às raças, contudo, diria este autor que o processo de formação da sociedade no Brasil, peculiarmente, teria conseguido renovar a herança trágica do parasitismo colonial, mormente apresentadas como conservantismo de elite e a falta de observação. Vai além na análise da questão racial quando considera que os argumentos de inferioridade da raça negra e da indígena dariam sempre margem à defesa da exploração dos indivíduos dessas raças pela branca.

Ainda assim, Bonfim não diferiria da tríade quando optasse, em coerência ao cientificismo dominante, por considerar que nosso estágio civilizacional era o de atraso. Pensando em Francês, tal qualquer seu par, também esse autor repetirá os preceitos comtianos de civilização, ordem, progresso.

Ressalta ainda Ortiz que a obra de Bonfim é reveladora da angústia causada em nossa intelligentsia pela sempiterna importação de idéias; pela não produção de pensamento nacional. O interessante é que eles mesmos, sem saberem, importavam idéias e, o pior, tentavam adapta-las de forma equívoca, ao nosso país...

Neste ínterim, a própria idéia de República, é-nos grato afirmar, deveria ter sempre sido considerada mais estrangeira que nacional para o caso brasileiro. Voltaremos abaixo a tocar no assunto, quando falarmos do ufanismo.

Retornando à abordagem de Ortiz no que concerne à raça e ao meio, ele coloca que o Brasil seguirá, da década de 1870 até a de 1930, no campo intelectual considerando-se inferior às grandes potências estrangeiras, pela sua constituição histórica: a mestiçagem será, durante todo esse período, vista negativamente por nossos pensadores. Somente com Gilberto Freyre, nos anos 30, haverá positivação da mestiçagem e valorização do elemento negro na sociedade brasileira.

É interessantíssima a perspectiva de Ortiz quanto ao fato de que, mesmo engrandecendo bastante as Ciências Sociais com suas teorias de democracia racial, Freyre, em seu profundo cabedal de conhecimento, tenha servido à manutenção de certa visão elitista da história brasileira, o que resulta em continuidade com análises anteriores da Identidade Nacional brasileira. Diz ele:
Gilberto Freyre representa continuidade, permanência de uma tradição, e não é por acaso que ele vai produzir seus escritos fora desta instituição "moderna" que é a universidade, trabalhando numa organização que segue os moldes dos antigos Institutos Históricos e Geográficos. Não há ruptura entre Sílvio Romero e Gilberto Freyre, mas reinterpretação da mesma problemática proposta pelos intelectuais do final do século. Arthur Ramos dizia que para se ler Nina Rodrigues bastava trocar o conceito de raça pelo de cultura. A afirmação pude talvez parecer simplista mas creio que encerra uma boa dose de veracidade. Gilberto Freyre reedita a temática racial, para constituí-la, como se fazia no passado, em objeto privilegiado de estudo, em chave para a compreensão do Brasil. Porém, ele não vai mais considerá-la em termos raciais, como faziam Euclides da Cunha ou Nina Rodrigues; na época em que escreve, as teorias antropológicas que desfrutam do estatuto científico são outras, por isso ele se volta para o culturalismo de Boas. A passagem do conceito de raça para o de cultura elimina uma série de dificuldades colocadas anteriormente a respeito da herança atávica do mestiço. (...) Gilberto Freyre transforma a negatividade do mestiço em positividade, o que permite completar definitivamente os contornos de uma identidade que há muito vinha sendo desenhada. Só que as condições sociais eram agora diferentes, a sociedade brasileira já não mais se encontrava num período de transição, os rumos do desenvolvimento eram claros e até um novo Estado procurava orientar essas mudanças. O mito das três raças torna-se então plausível e pode se atualizar como ritual. A ideologia da mestiçagem, que estava aprisionada nas ambiguidades das teorias racistas, ao ser reelaborada pode difundir-se socialmente e se tornar senso comum, ritualmente celebrado nas relações do cotidiano, ou nos grandes eventos como o carnaval e o futebol. O que era mestiço torna-se nacional.
Eu havia afirmado anteriormente que a obra de Gilberto Freyre atendia a uma "demanda social" determinada. (...)
(..) O que me interessa discutir não é o trabalho de Gilberto Freyre como um todo, que é certamente multifacetado - por exemplo, sua aproximação antropológica da história, sua tentativa de analisar historicamente a sexualidade, etc. E o tema da cultura brasileira, da mestiçagem, que é relevante para a discussão. Neste sentido cabe entendermos como a continuidade do pensamento tradicional se inscreve na descontinuidade dos anos 30. Existe hoje um certo tabu em torno de Gilberto Freyre que dificulta a apreciação de seus escritos. Freqüentemente a argumentação se encerra num circulo vicioso. Ele é um autor genial porque escreveu
Casa Grande & Senzala, e vice-versa: trata-se de um grande livro porque foi escrito por Gilberto Freyre. Colocar a questão da continuidade do passado no momento de reorganização do Estado brasileiro é, na verdade, procurar fora da obra as razões do sucesso do livro. Muito embora existam contradições internas entre a estrutura da obra o Estado centralizador (abordaremos este tema no capítulo sobre Estado autoritário e Cultura), o livro possui uma qualidade fundamental, ele une a todos: casa-grande e senzala, sobrados e mucambos. Por isso ele é saudado por todas as correntes políticas, da direita à esquerda. O livro possibilita a afirmação inequívoca de um povo que se debatia ainda com as ambiguidades de sua própria definição. Ele se transforma em unicidade nacional. Ao retrabalhar a problemática da cultura brasileira, Gilberto Freyre oferece ao brasileiro uma carteira de identidade. A ambigüidade da identidade do Ser nacional forjada pelos intelectuais do século XIX não podia resistir mais tempo. Ela havia se tornado incompatível com o processo de desenvolvimento econômico e social do país. Basta lembrarmos que nos anos 30 procura-se transformar radical-mente o conceito de homem brasileiro. Qualidades como "preguiça", 'indolência", consideradas como inerentes à raça mestiça, são substituidas por uma ideologia do trabalho. Os cientistas políticos mostram, por exemplo, como esta ideologia se constituiu na pedra de toque do Estado Novo. O mesmo processo pode ser identificado na ação cultural do governo de Vargas, por exemplo na ação que se estabelece em direção à música popular. E justamente nesse período que a música da malandragem é combatida em nome de uma ideologia que propõe erigir o trabalho como valor fundamental da sociedade brasileira. O que se assiste neste momento é na verdade uma transformação cultural profunda, pois se busca adequar as mentalidades às novas exigências de um Brasil "moderno". Ao mulato de Aluísio de Azevedo se contrapõe a positividade do mestiço, que diferentes setores sociais procuram orientar para uma ação racional mais compatível com a organização social como um todo. Não tenho dúvidas de que esta ideologia do trabalho se encontra ausente do texto de Gilberto Freyre. O que quero mostrar é que a operação Casa Grande & Senzala possibilita enfrentar a questão nacional em novos termos. Dai eu ter afirmado que o sucesso da obra se encontra também fora dela. Ao permitir ao brasileiro se pensar positivamente a si próprio, tem-se que as oposições entre um pensador tradicional e um Estado novo não são imediatamente reconhecidas corno tal, e são harmonizadas na unicidade da identidade nacional.
(
Idem, pp. 40,41 e 42).

Enfim, Ortiz teoriza que servindo ou não de continuidade na percepção do problema racial brasileiro enquanto parte importante da Identidade Nacional, o mito democrático-racial contém uma imprescindível proposta harmonizadora da sociedade, o que deve ser constatado em sua análise como valor positivo:
O mito das três raças, ao se difundir na sociedade, permite aos indivíduos, das diferentes classes sociais e dos diversos grupos de cor, interpretar, dentro do padrão proposto, as relações raciais que eles próprios vivenciam. Isto coloca um problema interessante para os movimentos negros. Na medida em que a sociedade se apropria das manifestações de cor e as integra no discurso unívoco do nacional, tem-se que elas perdem sua especificidade. Tem-se insistido muito sobre a dificuldade de se definir o que é o negro no Brasil. O impasse não é a meu ver simplesmente teórico, ele reflete as ambigüidades da própria sociedade brasileira. A construção de uma identidade nacional mestiça deixa ainda mais difícil o discernimento entre as fronteiras de cor. Ao se promover o samba ao titulo de nacional, o que efetivamente ele é hoje, esvazia-se sua especificidade de origem, que era ser uma música negra. Quando os movimentos negros recuperam o soul para afirmar a sua negritude o que se está fazendo é uma importação de matéria sim bólica que é ressignificada no contexto brasileiro. E bem verdade que o soul não supera as contradiçôes de classe ou entre países centrais e periféricos, mas eu diria que de uma certa forma ele "serve" melhor para exprimir a angústia e a opressão racial do que o samba, que se tornou nacional. O problema com que os movimentos negros se deparam é de como retomar as diversas manifestações culturais de cor, que já vêm muitas vezes marcadas com o signo da brasilidade. Uma vez que os próprios negros também se definem como brasileiros, tem-se que o processo de ressignificação cultural fica problemático. O mito das três raças é neste sentido exemplar, ele não somente encobre os conflitos raciais como possibilita a todos de se reconhecerem como nacionais.
(
Ibidem, pp. 43 e 44).

5. A REPÚBLICA E A IDENTIDADE NACIONAL

As contribuições que o historiador e cientista político José Murilo de Carvalho têm fornecido à Literatura brasileira com as pesquisas em torno da questão da República são de fato de tal monta que se tornará difícil ao leitor ou ao profissional de História das próximas gerações não se referir a elas num estudo crítico da transição da Monarquia para a República em fins do XIX.

Suas propostas de análise concentram-se em ver que a nossa República é marcada pelo pecado original da impopularidade, além de ser - ou por isso mesmo - inconclusa e inóspita.

Tanto em Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi (1987), quanto em Formação das Almas: o Imaginário da República no Brasil (1991), o autor trabalha com as idéias de que a República apresentou-se de tal forma artificial em sua chegada que se vê em dificuldades até hoje para afirmar-se como forma de governo popular e autenticamente partícipe da Identidade Nacional.

Na primeira obra, que visava elucidar melhor a obscuridade do golpe de 15 de Novembro e suas conseqüências mais imediatas no cotidiano da Cidade do Rio de Janeiro, Carvalho percebe que as autoridades republicanas programaticamente esvaziaram a Cidade - que sintetiza o País - das perspectivações de cidadania e ampliação de direitos civis e políticos. Diz ele:
(...) A cidade, a vida e os valores urbanos tenderiam a favorecer a prática republicana, que, por sua vez, se caracterizaria pela ampliação da cidadania. A República, mesmo no Brasil, apresentou-se como o regime da liberdade e da igualdade, como o regime do governo popular. A cidade fora o berço da cidadania moderna e, no Brasil, o Rio de Janeiro, maior centro urbano, apresentava as melhores condições de fornecer o caldo de cultura das liberdades civis, bases necessárias para o crescimento da participação política.
Encontramos realidade diferente. Nossa República, passado o momento inicial de esperança de expansão democrática, consolidou-se sobre um mínimo de participação eleitoral, sobre a exclusão do movimento popular no governo. Consolidou-se sobre a vitória da ideologia liberal pré-democrática, darwinista, reforçadora do poder oligárquico. As propostas alternativas de organização do poder, a do republicanismo radical, a do socialismo e mesmo a do positivismo, derrotadas, foram postas de lado. A cidade do Rio de Janeiro, por sua vez, não apresentava as características de cidade burguesa onde se desenvolveu a democracia moderna. O peso das tradições escravista e colonial obstruía o desenvolvimento das liberdades civis, ao mesmo tempo em que viciava as relações dos citadinos com o governo. Era uma cidade de comerciantes, burocratas e de vasto proletariado, socialmente hierarquizada, pouco tocada seja pelos aspectos libertários do liberalismo, seja pela disciplina do trabalho industrial. Uma cidade em que desmoronava a ordem antiga sem que se implantasse a nova ordem burguesa, o que equivale a outra maneira de afirmar a inexistência das condições para a cidadania política. (...)

Na República que não era, a cidade não tinha cidadãos. Para a grande maioria dos fluminenses, o poder permanecia fora do alcance, do controle e mesmo da compreensão,. Os acontecimentos políticos eram representações em que o povo comum aparecia como espectador ou, no máximo, como figurante. Ele se relacionava com o governo seja pela indiferença aos mecanismos oficiais de participação, seja pelo pragmatismo na busca de empregos e favores, seja, enfim, pela reação violenta quando se julgava atingidos em direitos e valores por ele considerados extravasantes da competência do poder. Em qualquer desses casos, uma visão entre cínica e irônica do poder, a ausência de qualquer sentimento de lealdade, o outro lado da moeda da inexistência de direitos., a lealdade era possível em relação ao paternalismo monárquico, mais de acordo com os valores da incorporação, não em relação ao liberalismo republicano.

Impedida de ser república, a cidade mantinha suas repúblicas, seus módulos de participação social, nos bairros, nas associações, nas irmandades, nos grupos étnicos, nas igrejas, nas festas religiosas e profanas e mesmo nos cortiços e nas maltas de capoeiras. Estruturas comunitárias não se encaixavam no modelo contratual do liberalismo dominante na política. Ironicamente, foi da evolução destas repúblicas, algumas inicialmente discriminadas, se não perseguidas, que se foi construindo a identidade coletiva da cidade. Foi nelas que se aproximaram povo e classe média, foi nelas que se desenhou o rosto real da cidade, longe das preocupações com a imagem que se devia apresentar à Europa. Foi o futebol, o samba e o carnaval que deram ao Rio de Janeiro uma comunidade de sentimentos, por cima e além das grandes diferenças sociais que sobreviveram e ainda sobrevivem. Negros livres, ex-escravos, imigrantes, proletários e classe média encontraram aos poucos um terreno comum de auto-reconhecimento que não lhes era propiciado pela política. (...)

Mas, ainda hoje, tempo de Nova República, livre da tarefa de representar o país e tendo conquistado o direito de eleger seus governantes, a cidade não consegue transformar sua capacidade de participação comunitária em capacidade de participação cívica. A atitude popular perante o poder ainda oscila entre a indiferença, o pragmatismo fisiológico e a reação violenta. O conluio da ordem com a desordem, da lei com a transgressão, outrora tipificado no uso de capoeiras nas eleições, continua em plena vigência através do acordo tácito entre autoridades e banqueiros do jogo do bicho. A Cidade, a República e a Cidadania continuam dissociadas, quando muito perversamente entrelaçadas. O esforço de associá-las segundo o modelo ocidental tem-se revelado tarefa de Sísifo. Já é tempo talvez de se fazer a pergunta se o caminho para a cidadania não deve ser outro. Se a República não republicanizou a cidade, cabe perguntar se não seria o momento de a cidade redefinir a República segundo o modelo participativo que lhe é próprio, gerando um novo cidadão mais próximo do citadino.
(4)
Nesse sentido, é interessante aludir aqui às obras de autores da época que opuseram-se ferrenhamente à implantação do novo regime e que, em suas teorizações, já anteviam os males que daquela forma de governo ilegitimamente alçada ao Estado Nacional, poderiam permear a realidade social e política dali resultante.

Referimo-nos evidentemente aos ufanistas. Lúcia Lippi Oliveira, em seu A Questão Nacional na 1ª República, analisa a complexidade das datações históricas de nossa percepção enquanto NAÇÃO.

Em Desde quando somos uma nação? (3º cap.), a autora defende que há uma infinidade de posturas intelectuais divergentes na datação do princípio de sentimentos nacionais na Literatura brasileira. Ela particularmente opta por ver na Geração de 1870 os mais coesos postuladores de uma nacionalidade, que remetesse de imediato às idéias de modernidade, progresso, civilização. Ora, em sendo o próprio atributo de NAÇÃO visto na História Moderna e Contemporânea como particular às noções de Estado Nacional, por herança dos séculos XVI, XVII e XVIII europeus, tem-se que somente os mosqueteiros intelectuais vieram a compor in concreto um pensamento nacional brasileiro.

No capítulo seguinte, a autora salienta uma vertente do pensamento ufanista brasileiro das décadas de 1890 e 1900: o ufanismo monarquista. Uma das conseqüências mais aparentes da ascensão republicana foi o engajamento político e literário dos intelectuais monarquistas na frente de batalha ao stablishment republicano. Diz ela:
No início da República o otimismo quanto às qualidades da terra brasileira, associado às críticas à vida política republicana era representado pelos civis monarquistas. Eles condenavam a presença e a atuação dos militares no novo governo. A face militarista do regime republicano recebia críticas ferrenhas de Eduardo Prado, de Afonso Celso e mesmo de figuras como Joaquim Nabuco, que entre outras coisas acusava a Constituição brasileira de 1891 de ser uma cópia da Constituição americana.
Eduardo Prado em Fastos da ditadura militar no Brasil (1902), reuniu artigos publicados entre dezembro de 1889 e junho de 1890 na Revista de Portugal, periódico dirigido por Eça de Queiroz. Sob o pseudônimo de Frederico S., Eduardo Prado denunciava as práticas da ditadura militar republicana que se opunham às teorias e práticas liberais vigentes no Império. Para o autor, o Império encarnava o liberalismo, enquanto a República significava a introdução do caudilhismo na política brasileira. Além disso, a República trouxera consigo a ameaça de dividir o Brasil em vários países, rompendo a unidade conseguida pelo Império.
Entre os civis opositores do governo militar de Floriano encontrava-se também Rui Barbosa, que fora ministro da Fazenda do primeiro governo republicano. Advogado de defesa dos insurretos da Revolta da Armada, Rui foi perseguido pelo governo de Floriano, acabando por partir para o exílio na Europa.
(
A Questão Nacional na 1ª República, p. 103).
A seguir, ela coloca que Eduardo Prado fará aparecer em 1893 o seu A ilusão americana, em que identificará amplamente a República no Brasil a um projeto de imitação e cópia, constituído numa verdadeira norte-americanização de nossa cultura nacional, consideravelmente destoante da do gigante do Norte.
O livro de Eduardo Prado A ilusão americana, escrito em 1893, trata do período histórico que se estende de 1823, ano em que foi elaborada a doutrina Monroe, até a época chamada de política do big-stick patrocinado pelo Secretário de Estado James Biaine, quando o expansionismo norte-americano inaugura sua presença armada na América Central. A primeira edição da obra foi confiscada pelo governo. Não foi o conteúdo antiamericano do livro o responsável por sua apreensão, mas sim o fato de ter sido lançado durante o estado de sítio decretado por Floriano devido à eclosão da Revolta da Armada e da Revolução Federalista. Esses movimentos, marcados pelo revanchismo monarquista, criavam um clima desfavorável para a circulação de idéias e obras comprometidas com a Monarquia.
A ilusão americana condena a forma republicana, apresentando-a como cópia do modelo político norte-americano. A crítica à República aparece já no prefácio, no qual Eduardo Prado se refere ao novo regime como uma "dolorosa provação que (...) tanto tem amargurado a pátria brasileira". Mais adiante, reafirma essa posição quando diz que ''o governo republicano do Brasil está tristemente predestinado a reagir sempre contra a civilização". (...)
Os países da América espanhola, ao adotar o modelo norte-americano, renegam suas tradições. ''O Brasil, mais feliz, instintivamente obedeceu à grande lei de que as nações devem reformar-se dentro de si mesmas, como todos os organismos vivos, com a própria substância''. Em 1889, com o advento da República, cometeu-se o mesmo erro dos países hispano-americanos: foi imposto um modelo que acarretou a perda imediata da liberdade.
(
Idem, p. 105).

Por fim, Lúcia Lippi ressalta que o choque de posicionamentos jornalísticos e literários no Brasil de 10 e 20 dá-se entre dois principais nacionalismos: o jacobino e o ufanista. O primeiro de cunho mais militar, republicano e pró-Estados Unidos; o segundo, mais civil, monarquista e pró-Inglaterra.

Ela conclui afirmando que heranças teóricas desses pensamentos perpassarão nosso pensamento nacional no pós-guerra.

6. CONCLUSÃO

Dentro do que foi proposto, cremos ter conseguido apontar vários modos de apreciação que, ainda inacabados e prescindindo de análise metodológica mais séria e acurada, ficam como indícios de trazer à luz da bibliografia existente acerca de Identidade Nacional brasileira teorias melhor esboçadas sobre o monarquismo e o republicanismo em nossa pátria; sobre a persistência de valores tradicionais monárquicos em nossa sociedade; sobre a existência de algum resquício de identificação nacional dos brasileiros - ainda que inconscientemente - com sua Realeza, etc.

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NOTAS
1) São parcos, em nossa opinião, estudos sócio-genealógicos que indiquem a importância histórica do fato de o Príncipe Herdeiro português ter sido, desde 1645, titulado Príncipe do Brasil. Em similitude com as Realezas espanhola, inglesa e francesa, onde os Herdeiros eram - e ainda são - respectivamente o Príncipe de Astúrias, o Príncipe de Gales e o Delfim de Viennois, o Rei D. João IV o Restaurador decretou que os primogênitos reais fossem chamados de PRÍNCIPES DO BRASIL, muito provavelmente numa alusão à crença de continuidade histórica da grandeza lusitana via Brasil. (voltar)
2) Vários autores aludem ao nosso reconhecimento da Independência por parte de Portugal como cessão de direitos. Interessante, no contexto aqui apontado, é notar a influência que nisso teve a diplomacia austríaca. Cf. RAMIREZ, Ezekiel Stanley (trad. Américo Jacobina Lacombe): As relações entre a Áustria e o Brasil, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1968. (voltar)

3) Cf. CABRAL DE MELLO, Evaldo: Prefácio IN Minha Formação, de Joaquim Nabuco, Topbooks, Rio de Janeiro, 1999. (voltar)

4) Cf. Conclusão IN Os Bestializados, o Rio de Janeiro e a República que não foi, Ed. Cia. das Letras, São Paulo, 1999 (3ª edição e 6ª reimpressão). (voltar)

domingo, 13 de maio de 2001

Texto de Lançamento do IDII

RIO DE JANEIRO, 13 DE MAIO DE 2001

Foi num Domingo à tarde, como hoje, que há 113 anos a angélica Princesa Imperial Regente desfechou com uma pena de ouro e brilhantes, fruto de subscrição popular, o último lance do processo de abolição da escravatura no Brasil, ao assinar a lei de nº. 3353, logo cognominada Lei Áurea pelos homens da época.

Por que considerar D. Isabel angélica? Será que uma mulher de personalidade tão forte, de vontades tão imperiosas, mereceria verdadeiramente o qualificativo de anjo? Depende. Se considerarmos a definição da Teologia cristã para anjo, poderemos, sim, encontrar na eterna Princesa Imperial parte de sua angelical existência. Pois o Cristianismo coloca que os anjos são seres que, basicamente, exercem a dupla função de mensageiros e guerreiros (nota 1). Bem se pode, na apreciação dos detalhes da vida de D. Isabel, perceber que ela tinha bastante dos dois.

Mensageira, ora entre seu Soberano Pai e alguns dirigentes políticos, ora entre dirigentes e clérigos, mas sobretudo, entre os menos favorecidos, de maneira particular os negros escravos, e a classe governante. Quanto à belicosidade do espírito de D. Isabel, evidências há que apontem para sua habilidade na forma de agir: com seus ministros, seus conselheiros, seus gentis-homens da Corte. Em tudo, vê-se força e pertinácia, equilibradamente. Mas, também em tudo, vê-se FÉ.

Este dom a Princesa o possuiu, ao que tudo indica, em proporções admiráveis. Se algo a mais ela teve que a destoa de seus imperais antecessores foi uma FÉ inabalável. Naturalmente que a Fé de Jesus Cristo, de Sua Igreja, aquela que a quase unanimidade dos brasileiros contemporâneos de D. Isabel com ela partilhavam. Interessante que a raiz etimológica das palavras fé, fidelidade, confiança (nota 2), seja a mesma, pois assim torna-se ainda mais assimilável a idéia de anjo libertador para a Princesa Redentora. Aos anjos, segundo a Teologia, não cabe mais a escolha, o livre-arbítrio; sua fidelidade ao Senhor é constituinte de sua presença e ação na História. A atuação de D. Isabel no processo histórico brasileiro de abolição do trabalho escravo, parece angélica por esses motivos: na ciência e consciência de que uma crise política e econômica poderia decorrer de suas investidas abolicionistas transformadas em LEI, a Regente não titubeou. Seu trono não era mais importante que todo um povo, ou toda uma raça, para o jargão da época.

Neste ano de 2001, D. Isabel pode ser lembrada pelos seus 155 anos de nascimento, em 29 de julho. Ou ainda pelos 80 anos de sua morte, em 14 de novembro. O que é mais memorável? O dia em que o Brasil se rejubilou pelo advento de mais um membro de sua Dinastia, naquele longínquo 1846, dessa vez contentando-se o povo porque a Imperatriz dera luz a uma imperial menina; ou o dia em que, no exílio, na véspera da data fatídica em que alguns poucos tinham algo a comemorar aqui, em solo pátrio, pelo aniversário da República, falece nossa Imperatriz de direito, nossa Soberana de jure, D. Isabel I, no Castelo de Eu, em 1921, na França? Se optarmos pela segunda data, teremos de nos explicar melhor: afinal, o que de tão memorável há na morte de D. Isabel?

Nossa resposta é marcadamente fruto da percepção de que a História inexiste, bem como qualquer outra realidade humana, na abstração total de Deus. Cremos no fideísmo histórico, em contraposição ao materialismo histórico, que há tanto vem dominando os parâmetros historiográficos no Brasil e no mundo. E ainda que percebamos a necessidade de algum ceticismo e nisto recorramos àquele considerado o pai do ceticismo filosófico, Michel de Montaigne, para uma melhor elucidação da História, não podemos acreditar na imanência como meio real de conhecimento da complexidade humana (nota 3).

Assim é que nós desejamos explicar o porquê de nossa intenção de rememorar D. Isabel. Cultuá-la, venerá-la, estudá-la, é isto o que nós precisamente nos propomos a fazer com a criação deste Instituto. Não se espantem os leitores se, em breve, falarmos até mesmo na abertura de um processo de beatificação da Princesa, junto às autoridades vaticanas, pois trata-se de um projeto há muito guardado nos corações dos fiéis súditos de D. Isabel. Explicada fica, portanto, a comemoração por motivo de sua morte: apesar da saudade, fica a certeza de sua santidade, de seu convívio com os eleitos, na Glória do Pai. A propósito, na mais lídima alusão à devoção popular pela Princesa, nos interiores do Brasil, onde ainda se pode escutar a cantiga:
Princesa Dona Isabel,
Mamãe disse que a Senhora
Perdeu seu trono na terra,
Mas tem um mais lindo agora.

No céu está esse trono,
Que agora a Senhora tem,
Que além de ser mais bonito
Ninguém lho tira, ninguém.
(nota 4)

Após 112 anos de República no Brasil, aquela que o povo conhece, parcamente, é bom que se diga, como "Princesa Isabel", não passa de um vulto histórico, estritamente relacionado à assinatura da Lei Áurea e nada mais... Aliás, nesta abordagem, por que chamá-la de D. Isabel? Por que não aceitar a forma popularizada de seu nome/título?

Porque vemos nisso a aceitação do que costumamos denominar império da ignorância e que identificamos, em grande parte, com a obra da República entre nós.

A Princesa Imperial D. Isabel, por três vezes Regente do Império (1871-72/1876-77/1887-88), jamais foi "Princesa Isabel". Sua titulatura completa era, pomposamente: Sua Alteza Imperial a Senhora Dona Isabel, Princesa Imperial do Brasil. O título de Príncipe Imperial era designativo, segundo a Constituição de 1824, do herdeiro presuntivo da coroa brasileira, e o de Príncipe do Grão-Pará ao primogênito deste (nota 5).

D. Isabel Christina Leopoldina Augusta Michaela Gabriela Raphaela Gonzaga de Bragança e Borbone foi Princesa Imperial do Brasil de 11 de junho de 1847, quando morreu seu irmãozinho D. Affonso Pedro, até 9 de julho de 1848, quando nasceu o último filho do Casal Imperial D. Pedro II e D. Teresa Cristina, o Príncipe Imperial D. Pedro Affonso (nota 6). Como este faleceria um ano e meio mais tarde, caberia em definitivo à loura Princesinha a herança do trono do Brasil. Assim, em 10 de agosto de 1850, o Senado Imperial reconhecia-a solenemente como Princesa Imperial; lá, mais tarde, ela pronunciaria o juramento de Herdeira, conforme os dispositivos constitucionais, quando completasse 14 anos . E assim foi feito em 29 de julho de 1860...

Ainda por se fazer está uma devida historicização de porque a expressão Princesa Isabel pegou tanto. Estrangeirismos, tanto europeus (sobretudo germânicos), quanto africanos, certamente auxiliarão na compreensão do fato de que um membro de nossa Realeza, herdeira da tradição lusitana dos Bragança, e por aí, sobretudo das tradições ibérica e latina, tenha sido apelidada de outra forma que sem o título nominal Dom/Dona antes de seu primeiro prenome. Assim como, nos dias que correm, o Rei de Espanha, D. Juan Carlos I, é chamado de Rei Juan Carlos, até pela mídia ibero-americana e tal expressão é amplamente utilizada, em desconformidade com a tradição, vale a pena esclarecer porque D. Isabel passou para a História do Brasil quase que exclusivamente como Princesa Isabel. Mesmo os mais doutos entre os nossos historiadores chamaram-na dessa forma, durante toda a nossa historiografia do século XX .

Ainda nesta temática, por que desconsiderar a forma popularizada do nome/título de D. Isabel? O que há de mal nos brasileiros considerarem-na sua imortal Princesa Isabel? De mal, nada, se encararmos o processo de popularização como algo que faz de alguma pessoa ou de alguma coisa popular, i.e., querido, familiar ao povo. Assim, como ver nocividade na expressão popular Princesa Isabel?

A questão a que aludimos aqui é diferente. O fato de D. Isabel ser chamada apenas de Princesa Isabel parece-nos, recorrentemente, uma forma de constatação do pouco conhecimento que se tem sobre ela. Sobre sua vida, sua atuação, seu "reinado" no exílio.

De 1891 a 1921, D. Isabel foi a Chefe da Casa Imperial do Brasil no exílio, na França. Nesses trinta anos, D. Isabel não fez outra coisa senão pensar, diariamente, em seu País, seu Povo, seu Rio de Janeiro, sua Petrópolis, seus conselheiros, suas amigas, enfim, em tudo que remetesse ao idolatrado Brasil. Nas visitas que recebia dos brasileiros ilustres que a iam ver em Paris, na casa de Boulogne-sur-Seine, ou no Castelo de Eu, D. Isabel e seu imperial Consorte podiam transformar o cotidiano da Família Imperial em BRASIL todo o tempo. Fosse com os nobres que se exilaram com os Príncipes, fosse com os demais brasileiros residentes na Europa, em particular na França, D. Isabel conduzia sua vida, e a de seus familiares, sempre em prol da Causa do Brasil. Não necessariamente da causa da restauração monárquica aqui, mas da causa do bem do país, do povo, da Igreja brasileira. Suas correspondências relatam uma mulher sem-igual, uma dama gentilíssima, ainda que categórica.

Há honestos relatos dos netos da Redentora, alguns recolhidos em livros de valor, que dão alguma idéia do ambiente que reinava nos lares de D. Isabel. Mas há também todos os inumeráveis relatos dos brasileiros que foram ver, alguns pela primeira vez - pois muito jovens na época do golpe de 1889 - sua Imperatriz, foram lhe beijar a mão, lhe prestar reverência como a verdadeira e única Soberana do Império do Cruzeiro do Sul, ainda que destronada. Em todos esses relatos, a impressão que fica é quase sempre a mesma: o quanto perdeu nosso País, historicamente, pelo III Reinado que não veio...

Em seu lugar, tivemos nós a Primeira República - mais conhecida como República Velha -, e todos os processos a ela inerentes: o aumento do controle do Estado sobre a vida civil; a corrupção dos homens de governo; o vendilhismo e servilismo ao capital e domínio estrangeiros, sobretudo norte-americano; os genocídios de Canudos (1893-97) e do Contestado (1912-16), onde, pela primeira vez na História do Brasil, o governo dizimou milhares de campesinos miseráveis, exclusivamente por não aceitarem uma nova ideologia do poder (nota 11); o afastamento da intelectualidade da vida política (12); a socialização das perdas (13); o coronelismo como prática efetiva de poder local, subvencionado pelo poder central; a reordenação das grandes cidades, sobretudo o Rio de Janeiro, segundo parâmetros progressistas de civilização, marcadamente eivados de racismo e outros segregacionismos, etc.

A tudo isto acompanhou D. Isabel, de seu exílio francês, repleta de interesse e, quando possível, de alguma forma, de intervenção, ainda que meramente epistolar. Quase todas as vezes que algum homem público brasileiro que lhe era fiel escrevia-lhe perguntando se poderia participar de algum projeto público de interesse nacional, D. Isabel era peremptória: exigia que o fizesse. Muitos dos nomes que a República cooptou para seu serviço só o foram por intermédio de D. Isabel, que em suas recomendações só cria no melhor que aqueles cidadãos pudessem fazer pelo BRASIL. Será que pode haver maior grandeza d´alma?

A República que não permitiu o advento do III Reinado era "auxiliada" pela Redentora, na esperança de que o bem comum, o respeito pela coisa pública (res publica) estivesse sendo posto em prática. Não podia ela imaginar o que aquela República estava representando na História do país...

Dito isto, pode-se entender melhor o porquê da necessidade do INSTITUTO CULTURAL D. ISABEL I A REDENTORA. É nosso dever, enquanto cidadãos preocupados com os rumos históricos de nossa Pátria, acentarmos sobre o passado vivos exemplos de condução da Política. Mas se não conhecermos bem este passado, como fazê-lo? D. Isabel é, para a grande maioria da população brasileira atual, um grande enigma. Sua biografia é conhecida por poucos. Sua memória está perdida na falta de um revivescer constante. Mesmo seu augusto Pai, nosso venerado Imperador, D. Pedro II, acreditamos que ainda não tenha recebido a "Justiça de Deus na voz da História" (nota 14), pois ainda há quem o detrate...

Nesse sentido, nossa logomarca reluz na síntese a que se propõe: descortinar o III Reinado. Dar ao grande público a teatralidade e a apoteose monárquica que por direito pertencem à Redentora na História do Brasil e que lhe foi negada até hoje.

Afinal, desconhecer D. Isabel é desconhecer seu marido, o injustiçado Conde d´Eu, o Príncipe francês Gaston de Orleans (*1842 †1922). Homem que tentou de todas as formas ser um bom brasileiro, um bom militar, um bom pai de família, um bom genro, um bom esposo e que foi tudo isso, na qualificação de D. Isabel. Mas que já desfrutou em parte de uma pseudo-história até da pecha de homicida, senão genocida, pela atuação na Guerra do Paraguai. Até que ponto pode chegar a banalidade humana?! É inegável que o Príncipe não alcançou as "honras dos altares" entre os populares, como sua esposa, e a simpatia unânime entre os políticos brasileiros, mas daí a ter sido um homem cruel, nunca!

Permanecendo oculta, a Princesa também não dá à luz da História seus filhinhos, D. Pedro, D. Luiz e D. Antonio, que nos arroubos infantis eram portentosos abolicionistas, chegando a imprimir com a ajuda de seu preceptor, o Barão de Ramiz, o Correio Imperial, órgão de defesa do fim da escravidão e de apoio aos negros.

Por fim, desconhecê-la é pouco ou nada saber acerca de seu sucessor, o Príncipe Imperial D. Luiz (*1878 †1920), aquele a quem Gilberto Freyre cognominou de impetuoso pretendente imperial (nota 16) e que, foi, sem sombra de dúvidas, uma das maiores ameaças da República brasileira enquanto viveu. O mesmo Freyre nos coloca que a atuação de D. Luiz, com seus manifestos e contatos no Brasil, era uma prosseguidora da obra de Nabuco, no que concerne à chamada questão social. Sua morte prematura precedeu a de sua mãe e, talvez, tenha sido a mais grave perda da Princesa. Este brilhante combatente brasileiro, chamado pelo primo, o Rei Albert I dos Belgas, de "homem como poucos, príncipe como nenhum" e apelidado de Príncipe Perfeito (nota 17) pelo político Martim Francisco de Andrada, foi duas vezes impedido de desembarcar na Pátria pela República, mas nem assim deixou de lado os planos de restauração. Intelectual de renome e autor consagrado, foi membro do Institut de France.

Estranho que os brasileiros atuais - e o que é um pouco mais chocante -, que os historiadores brasileiros saibam muito pouco ou quase nada, sobre a Dinastia Imperial. Que não conheçam a sucessão dinástica, que desconheçam o nome do atual Imperador, de direito, do Brasil.

A todo este complexo rol de realidade histórica denominamos império da ignorância e, sem pestanejar, creditamos-lhe à República, como já foi dito. Pois foi ela quem, objetivando "civilizar" o país e sua gente, esmagou e perseguiu todas as nossas tradições, principalmente as do povo. Como a tradição brasileira é duplamente - senão triplamente - monárquica, por termos duas vezes nos constituído sob este regime (1500 e 1822); como ainda persiste entre nós a idéia de "D. João", "D. Pedro", "Princesa Isabel" (nota 18), e como estas personagens eram festejadas popularmente, fomos conscientemente, ao que tudo indica, forçados a desconhecê-las, ou ao menos a reconhecer caricaturas de suas existências.

A respeito das idéias D. PEDRO e PRINCESA ISABEL serem universais entre os brasileiros, são dignas de referência as observações do Prof. Otto de Sá-Pereira, em seu artigo A Princesa e o Frei, publicado na Tribuna de Petrópolis, de 9.7.2000. Nele, conta-nos o historiador que ao descrever os funerais do mítico Frei Luiz, personagem santo da Cidade de Petrópolis, o escritor Oliveira Castro cita a presença da Família Imperial no enterro. Corria o ano de 1937. Oliveira Castro diz que, à entrada dos Príncipes brasileiros, a grande multidão que se exprimia cedeu respeitosamente lugar para que eles passassem e ocupassem seus lugares de honra no cortejo. O autor, no entanto, cita expressamente a Princesa Isabel como uma dessas personagens. Que Princesa Isabel (?), pergunta o Prof. Otto. Ao que ele conclui tratar-se de D. Isabel de Orleans e Bragança, a esposa do Conde de Paris, Chefe da Casa Real de França, uma neta homônima da Redentora.

O que se pode subtrair do texto é que os Príncipes brasileiros cujos prenomes forem Pedro e Isabel, serão sempre um D. Pedro e uma Princesa Isabel. São idéias que, entre nós, se universalizaram.

Enquanto isso, nossa República não se fez, e não se faz, popular. A obra A Formação das Almas: o Imaginário da República no Brasil, do renomado historiador e cientista político José Murilo de Carvalho, elucida a questão:
Falharam os esforços das correntes republicanas que tentaram expandir a legitimidade do novo regime para além das fronteiras limitadas em que a encurralara a corrente vitoriosa. Não foram capazes de criar um imaginário popular republicano. Nos aspectos em que tiveram algum êxito, este se deveu a compromissos com a tradição imperial ou com valores religiosos. O esforço despendido não foi suficiente para quebrar a barreira criada pela ausência de envolvimento popular na implantação do novo regime. Sem raiz na vivência coletiva, a simbologia republicana caiu no vazio, como foi particularmente o caso da alegoria feminina.
(...)
A falta de uma identidade republicana e a persistente emergência de visões conflitantes ajudam também a compreender o êxito da figura de herói personificada em Tiradentes. O herói republicano por excelência é ambíguo, multifacetado, esquartejado. Disputam-no várias correntes; ele serve à direita, ao centro, à esquerda. Ele é o Cristo e o herói cívico; é o mártir e o libertador; é o civil e o militar; é o símbolo da pátria e o subversivo. A iconografia reflete as hesitações. Com barba ou sem barba, com túnica ou de uniforme, como condenado ou como alferes, contrito ou rebelde: é a batalha por sua imagem, pela imagem da República.
Ele se mantém como herói republicano por conseguir absorver todas essas fraturas, sem perder a identidade. A seu lado, apesar dos desafios que surgem das novas correntes religiosas, talvez seja ainda a imagem da Aparecida a que melhor consiga dar um sentido de comunhão nacional a vastos setores da população. Um sentido que, na ausência de um civismo republicano, só poderia vir de fora do domínio da política. Tiradentes esquartejado nos braços da Aparecida: eis o que seria a verdadeira pietà cívico-religiosa brasileira. A nação exibindo, aos pedaços, o corpo de seu povo que a República ainda não foi capaz de reconstituir. (nota 19)
Dentro dessas perspectivas, torna-se imperativo uma busca concreta de nossas raízes históricas, tendo como foco principal o período compreendido pela República Velha. É ali, segundo nossa opinião, que se encontra grande parte das explicações de muitas das mazelas do Brasil atual.

Houve, e ainda há, certo adesismo republicano da maioria dos pensadores e cientistas sociais brasileiros, à forma de governo implantada golpisticamente entre nós em 15 de novembro de 1889. Aliás, nos parece que há até bem pouco tempo atrás, sequer poderíamos falar nesse tom, uma vez que a LEI proibia ... (nota 20)

O fato é que o desconhecimento acerca de nossa Realeza, o desdém para com nossa tradição monárquica, foram hábeis formas da República se manter entre nós. Valendo-se da ignorância do povo, ao qual ela submetia - ou ainda submete? - à falta de escolas, de moradias dignas, de um mínimo de condições de subsistência, nossa República pôde ainda contar com o apoio - este muito pouco inteligível -, dos setores esquerdistas de nossa intelectualidade. Esquisito, não?

Mas a verdade é que quase todos os historiadores brasileiros das décadas de 50, 60, 70 e 80, seguindo preceitos historiográficos de cunho reconhecidamente marxista, também não viam na República grande fonte dos males brasileiros. Suas preocupações eram outras, e seus preconceitos, latentes. Olharam para o nosso passado monárquico nacional (67 anos) e qualificaram-no: retrógrado, destoante, anacrônico, mantenedor do poder das elites agrárias.

Não viam no Império, e em seu parlamentarismo monárquico, nenhum toque de democracia refinada. Centravam-se, quase que obstinadamente, sobre a instituição da escravidão, como único motor da História brasileira de então. Observavam as classes sociais da época (Realeza, Nobreza, Clero, Burguesia) e tachavam: ANTIGO REGIME!
Analisavam o pós-montesquiano Poder Moderador (nota 21) da Constituição de 1824 e diziam: poder absoluto do rei! Ah, se o anacronismo é pecado em História, o que se poderá deduzir de análises tão mecanicistas! Costumamos designar tal tipo de interpretação histórica como econômico-cêntrica.

Nossos 40 anos de estabilidade política e econômica, nossa escola de estadistas, nosso brilhantismo diplomático, nosso brio militar, nosso mecenato artístico, tudo isso era minimizado, senão apagado, em nome da apreciação da escravidão.

Uma vez tocado no melindroso tema da escravidão, fazemos questão de nele entrarmos, cautelosamente. Ainda não podemos, dadas as nossas não-estruturadas fontes de conhecimento, tecer grandes juízos acerca da escravidão no Brasil-Império. Nossa imaturidade intelectual não o permite, no momento. Mesmo assim, é-nos francamente possível, desde já, perceber que havia no Império uma enorme quantidade de contradições, que não nos parecem da mesma forma claras na República.

Isto é, no Brasil o Império das contradições cedeu lugar à República das afirmações. A sociedade imperial, profundamente hierarquizada, como lembram vários autores, tinha em seu topo uma classe, a Realeza, composta do Imperador, da Imperatriz, das Princesas e, da década de 1860 em diante, dos Príncipes consortes e dos Principesinhos. Todos esses príncipes compreendiam muito bem que uma das maiores fontes da grandeza do Brasil-Império dependia do elemento servil. Nossa economia era, de fato, baseada no trabalho escravo. Contudo, todos os membros da Realeza eram abolicionistas. Viam sobremaneira na escravatura uma instituição anti-cristã, primitiva (pagã, em algum sentido), e propugnavam pelo seu fim. A Casa Imperial não tinha escravos e todos os serviçais dos paços eram remunerados condignamente. A ação de D. Pedro II no processo que conduziria ao fim total da escravidão sempre foi gradual, é verdade, mas jamais omissa. Já a sua filha... Esta era uma abolicionista inveterada.

Graças a Deus, as últimas contribuições historiográficas para o tema têm sido meritoriamente apreciadas. Sobretudo o já citado José Murilo de Carvalho e o historiador Eduardo Silva (nota 22) têm posto à tona, em artigos de jornal, o quanto as atitudes de D. Isabel, fosse escondendo escravos fugidos nos palácios, fosse bailando com gentis-homens negros nos salões imperiais, atingiam o orgulho dos escravocratas mais intransigentes. Isto na esfera social, porque na política, suas medidas eram ainda mais drásticas: a Lei Paranhos ou Lei do Ventre Livre, em setembro de 1871 e as Falas do Trono, sempre plenas de críticas à manutenção do escravismo. Tudo sempre sob as pesadas acusações de alguns políticos de que ela estava excedendo seus poderes constitucionais...

A estas contradições imperiais, se seguiram no curso da História brasileira, as afirmações republicanas - que são auto-afirmações, no linguajar psicanalítico. A ordem, o progresso, a ciência, novas deidades nacionais. Que a ferro e a fogo se enraizariam, se necessário fosse... O branqueamento da população com a maciça imigração européia, a negação do passado colonial e o proposital esquecimento do passado imperial.

O pior é que as encenações não conseguiam disfarçar as discrepâncias, já no Brasil da segunda década do séc. XX, comparando-lhe ao Brasil-Império. O ultra-democrata Monteiro Lobato, com sua mordacidade peculiar polariza os dois Brasis, concluindo:
Tinha um rei. Tem sátrapas.
Tinha dinheiro. Tem dívidas.
Tinha justiça. Tem cambalachos de toga.
Tinha Parlamento. Tem ante-sala de fâmulos.
Tinha o respeito do estrangeiro. Tem irrisão e desprezo.
Tinha moralidade. Tem o impudor deslavado.
Tinha soberania. Tem cônsules estrangeiros assessorando ministros.
Tinha estadistas. Tem pêgas.
Tinha vontade. Tem medo.
Tinha leis. Tem estado de sítio.
Tinha liberdade de imprensa. Tem censura.
Tinha brio. Tem fome.
Tinha [D.] Pedro II. Tem... Não tem!
Era. Não é!

Cremos firmemente que um certo democracismo míope impediu muitos de nossos melhores pensadores de ver a Monarquia Nacional brasileira, em especial o II Reinado e as Regências da Princesa, como uma época à parte em nossa História pátria. E o que é pior, segundo nossa visão, impediu à Princesa outro lugar na História que o de mera assinante da Lei Áurea. D. Isabel foi muito mais que isso!

Da própria Lei Áurea ainda está por se fazer uma análise mais metodologicamente séria, encarando-a não como mero instrumento legal de suspensão do trabalho escravo, mas como, naquele momento, de equiparação social entre brancos e negros. É isto o que precisa ser estudado. Certo é que especialistas em Direito Constitucional muito teriam a acrescentar nestas perspectivas. A luta de D. Isabel não era somente contra o trabalho escravo e suas cruéis facetas, mas contra suas conseqüências, seus enraizamentos em nossa sociedade. Era a mesma luta de Joaquim Nabuco e André Rebouças. O III Reinado, se viesse, muito provavelmente veria a ascensão destes dois senhores ao Ministério Imperial... mas não veio! A República dos generais e dos proprietários rurais chegou na frente.
Em nossa percepção, queiram perdoar-nos a franqueza, não escapam nem mesmo as intelectuais brasileiras de postura feminista: nunca se as viu defendendo a imagem de D. Isabel. Muito pelo contrário, algumas já chegaram a atacá-la. E a Princesa Herdeira que instada por senadores se mulheres podiam votar, respondia, perguntando, que "se reinam, por que não podem votar (?)", não encontra nelas um apoio contumaz. A única mulher Chefe de Estado das Américas, até o advento da presidenta nicaragüense em fins do séc. XX não possui admiradoras entre as defensoras dos direitos da mulher! E por que? O que será que incomoda em D. Isabel?

Apontamos para a sua religiosidade. Interessante que tanto para exaltados positivistas republicanos do final do XIX quanto para feministas de meados e fins do XX, a fé da Princesa seja motivo de menosprezo. Até entendemos que o primeiro grupo, machista por excelência, visse com maus olhos a beatitude de D. Isabel, pois isto lhes representava a possibilidade política de estar abaixo, hierarquicamente, de uma mulher devota. Logo eles, tão científicos, tão senhores de si, tendo de se subordinar a uma mulher, e ainda por cima católica fervorosa, nem pensar!...

Já as feministas que nos perdoem, mas sua omissão perante a memória da Redentora é inconcebível. Por que em suas idealizações mulheres completas têm que ser revolucionárias, operárias, trabalhadoras assalariadas? Ao acaso princesas, condessas e nobres damas não são também mulheres? E por que heroínas têm de ser atéias? Por que não podem ser santas? Nesse sentido, cala fundo sua falta de interesse na mulher que durante quase quatro anos reinou sobre nosso país, mas também nas outras Imperatrizes do Brasil, estas Consortes: D. Leopoldina, D. Amélia e D. Thereza Christina.

Nasce, portanto este INSTITUTO do espírito de renovação do pensamento brasileiro: acerca de sua Realeza, acerca de sua Imperatriz exilada, acerca dos dissabores que a obra republicana nos legou.

Escreveu um romancista brasileiro, na fala final das memórias dúbias de nossa segunda Imperatriz, D. Amélia de Leuchtenberg:
O pior de ter passado pela morte não é ser esquecida. É esquecer. Perder mesmo os farrapos de memórias que me mantém como uma estrutura relativamente coesa cento e vinte anos depois de ter morrido. Preservando a dúvida. (nota 26)
Se a busca incessante da construção das identidades (individuais, nacionais, locais, familiares) for mesmo condicionante da natureza humana, então ela deve ser bem estruturada em raízes conhecidas, não na obscuridade.

Sobretudo a nossa geração, a dos filhos das décadas de 70, 80 e 90 do séc. XX acompanhou o ruir de vários mundos e, com eles, de boa parte das cosmovisões da Era dos Extremos (nota 27). Assim, os futuros Chefes de Estado e de Governo europeus, americanos, africanos, asiáticos e oceânicos provenientes dessa geração têm a sua frente um mundo de incertezas. A globalização se apresenta como fenômeno imperante, trazendo consigo dúvidas, contradições, perigos... mas quem sabe, também benesses?

Nossa certeza se firma nos princípios fideístas mais basilares (nota 28). Cremos firmemente que só uma espécie de recristianização de nosso pensamento nos levará a uma sadia e harmoniosa convivência entre os diferentes povos, culturas, nações. O Cristianismo, com suas particularidades igualitárias, ainda que hierarquizadas; universais, ainda que localizadas é, ao nosso ver, uma das boas respostas aos excessos humanos neste séc. XXI.

Sem agir reacionariamente, poderemos CONSTRUIR sobre bases evangélicas e veremos surgir uma historiografia cristã, uma sociologia cristã, uma antropologia cristã, uma psicanálise cristã, uma sexologia cristã, enfim toda uma filosofia neo-cristã.

Sem repetir pecados de nossos antepassados, tentaremos fugir das fobias a seres humanos e escapar de todos os mecanismos de raciocínio segregacionistas: racismo, xenofobia, misoginia, homofobia. Em resumo, qualquer etnocentrismo infundado deve ser rechaçado.

Crendo na saudável união entre Fé e Política, lutaremos pela aproximação - não união - do Estado com a Religião. Apoiando-nos na certeza da liberdade humana de cultos religiosos, ainda assim defendamos que o Chefe de Estado tenha ligação aparente com a religião, a represente de uma maneira especial.

Não nos enganemos! Dos três lemas da Revolução Francesa por excelência (LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE), creiamos na absolutização apenas do último deles, que é o ideal cristão augusto: amarmo-nos uns aos outros como Ele nos amou. Porque a liberdade absoluta e a igualdade absoluta não existem, não são humanamente possíveis. As tentativas de sua implantação, em nosso século, deram provas desastrosas disso.

Voltemos nossos olhos para o Homem de Nazaré e n´Ele vejamos o humilde carpinteiro, sim, mas também o príncipe judeu que Ele foi. Apesar de nascido na manjedoura, em meio a animais e pobres pastores, Jesus era o Rei dos Reis, e por isso mesmo foi adorado pelos sábios-magos do Oriente, guiados por uma sobrenatural estrela cadente.

O advento de Cristo é, para nós, o advento da relativização da Hierarquia na humanidade, jamais a supressão dela (nota 29). Jesus só era revolucionário se encararmos REVOLUÇÃO como volta às origens, na leitura do filósofo alemão Geörg Wilhelm Hegel. Ou seja, o Reino de Deus é o convite ao retorno ao estado primitivo do gênero humano, que era o de semelhança de Deus.

A proposta universalista da mensagem cristã - "Todos vós, com efeito, que fostes batizados em Cristo, vos vestistes de Cristo. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus" (Gl 3, 27-28) - deve ser vista como o fundamento mesmo do próprio vocábulo UNIVERSO: o diverso no uno.

Desta maneira, viver uma vida cristocêntrica é a grande proposta que se põe. Não necessariamente teocêntrica, i.e., crente no transcendente absoluto, desligado do imanente, que é parte do real. Mas cristocêntrica, fiel ao ensinamento do DEUS-HOMEM, d´Aquele que se fez carne e habitou entre nós... Mesmo sendo Verdadeiro Deus, Jesus Cristo foi Verdadeiro Homem. Foi em tudo, menos no pecado, semelhante a nós.

Temos consciência de que não escrevemos para os que nos antecederam no bom combate. Dialogamos com os que nos são mais próximos, ou seja, nossos contemporâneos, os filhos do fim do milênio. Aos que nos precederam na Fé e no combate, ficam o reconhecimento filial e o respeito reverencial.

O INSTITUTO CULTURAL D. ISABEL I A REDENTORA funda-se no trabalho destes ilustres senhores e destas honrosas senhoras que souberam manter, no Brasil assolado de intempéries do séc. XX, a dignidade e a fidalguia característicos da brasilidade do séc. XIX. A eles devemos muito; sua obra em nós permanecerá.

E hoje, aqui nesta trissecular Imperial Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, tão peculiarmente relacionada ao que estas linhas acima têm a dizer das contradições imperiais que eram as contradições brasileiras de uma época, lançamos em comunhão com os anseios da Dinastia, o lema de RESGATAR NOSSA HISTÓRIA PARA RESGATAR O BRASIL! (nota 30)

O INSTITUTO CULTURAL D. ISABEL I A REDENTORA que nasce é mais uma idéia que uma realidade burocrática firmada. Esta, ainda teremos de efetivar.

Mas a certeza inexplicada de que este 13 de maio de 2001 (nota 31) se relaciona concretamente com o áureo futuro do Brasil, esta fica. E, se Deus nos ajudar, tal certeza irá imperar e vencer, para Sua maior Glória!

E VIVA DONA ISABEL I,
IMPERATRIZ DO BRASIL!!!

 
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NOTAS

1) Cf. MATHIEU-ROSAY, Jean: Dicionário do Cristianismo, Ediouro, Rio de Janeiro, 1992.
2) Cf. CUNHA, Antonio Geraldo da: Dicionário Etimológico Nova Fronteira, 2ª ed., Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1999.
3) É dele mesmo o conceito de ceticismo fideísta (cf. MONTAIGNE, Michel de: Ensaios, in OS PENSADORES, Abril Cultural, São Paulo, 1984).
4) Cf. RODRIGUES, José Honório: Atas do Conselho de Estado, v. X, Ed. Senado Federal, Brasília, 1973.
5) Cf. CONSTITUIÇÃO POLÍTICA DO IMPÉRIO DO BRASIL, Capítulo III, art. 105.
6) A ordem de sucessão ao trono do Império do Brasil dava-se assim: entre a descendência do Imperador Senhor D. Pedro I, viria primeiramente a linha anterior à posterior; na mesma linha, o grau mais próximo ao mais remoto; no mesmo grau, o sexo masculino ao sexo feminino; no mesmo sexo, a pessoa mais velha à mais moça (Capítulo IV, artigos 116, 117 e 118 da Constituição do Império). Tal sucessão é chamada pelos juristas de LEI DE PRIMOGENITURA, em diferenciação às Leis Sálica, Semi-Sálica e Cognática. A Lei de Primogenitura é válida ainda nas monarquias dinamarquesa, monegasca, espanhola e britânica (cf. BOGDANOR, Vernon: The Monarchy and the Constitution, Claredon Press, Oxford, 1995, p. 42).
7) Cf. CONSTITUIÇÃO POLÍTICA DO IMPÉRIO DO BRASIL, Capítulo III, art. 106.
8) A expressão título nominal é nossa. Denota que, apesar de genealogicamente existir certa simbiose entre nomes e títulos, particularmente Dom/Dona, cuja abreviação comum é D., serve como prenome aos príncipes e nobres latinos que dele se utilizam. Uma das melhores formas de se enxergá-lo é postulando que não existe plural para Dom/Dona. Isto é, não se pode dizer "Reis Dom Alfonso e Dom Fernando de Espanha" de outra maneira: "Reis Dons Alfonso e Fernando de Espanha", bem como "Infantas Dona Maria Thereza e Dona Maria Isabel de Portugal", não podem ser chamadas de "Infantas Donas Maria Thereza e Maria Isabel de Portugal", etc.
9) Exceção faça-se ao saudoso João Camillo de Oliveira Torres, brilhante historiador mineiro, autor de Democracia Coroada, obra interessantíssima, muito pouco conhecida da maior parte dos historiadores brasileiros de hoje. João Camillo jamais referiu-se à Princesa de outra forma que não D. Isabel.
10) Aliás, é interessante que as mulheres da Realeza sejam por vezes chamadas de Imperatriz Leopoldina, Imperatriz Thereza Christina, Princesa Leopoldina (irmã de D. Isabel), etc., sem o Dona (D.) lhes precedendo. Ainda que alguns - poucos - historiadores gostem de evocar a entidade Pedro II, às vezes, ao invés de Dom Pedro II, o Imperador, repetimos que faz-se necessária a historicização no caso de D. Isabel, mais particularmente.
11) Os movimentos messiânicos de Canudos e do Contestado foram chamados de monarquistas pelas autoridades da República, justamente numa classificação de desordeiros contra a nova ordem republicana. O monarquismo, no sentido intelectualizado do termo, certamente não era a tônica dos sertanejos revoltados com a nova ordem, ainda que o anti-republicanismo o fosse. Sentimentos sebastianistas, pietistas e nostálgicos, contudo, faziam deles partidários da volta da Monarquia e do princípio de sacralidade do poder, vale dizer, da origem divina do poder.
12) Nesse sentido, a obra Literatura como missão (Ed. Brasiliense, São Paulo, 1983), de Nicolau Sevcenko, é quase um clássico no estudo do afastamento, às vezes auto-provocado, às vezes incitado pelo establishment republicano, dos intelectuais da vida pública brasileira. Mormente Euclides da Cunha e Lima Barreto são aí analisados.
13) Conceito criado pelo historiador Celso Furtado para designar a forma como o Governo da República arcava com os prejuízos das oligarquias cafeeiras, quando as oscilações cambiais provocavam queda nos preços do café nos mercados externos.
14) Epitáfio do Augusto Senhor D. Pedro II.
15) Segundo filho de D. Isabel que, em 1908, tornou-se o Herdeiro presuntivo, em virtude da renúncia de seu irmão mais velho, D. Pedro de Alcântara, aos direitos e título do Brasil.
16) Cf. FREYRE, Gilberto de Mello: Ordem e Progresso, tomo II, cap. 8, José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1974.
17) O Príncipe Perfeito é o patrono do Círculo Monárquico do Rio de Janeiro.
18) Sobre a persistência do imaginário monárquico entre nós, é interessante citar a mais recente análise antropológica a respeito: As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um Monarca dos Trópicos, de Lilia Moritz Schwartz, Companhia das Letras, São Paulo, 1998.
19) Cf. CARVALHO, José Murilo de: A Formação das Almas, o Imaginário da República no Brasil, 7ª reimp., Companhia das Letras, São Paulo, 1998.
20) Referimo-nos, evidentemente, à Cláusula Pétrea das várias Constituições que a República brasileira possuiu ao longo do séc. XX. Em todas elas, constava um artigo que determinava o não questionamento da forma republicana de governo e previa as penalidades para quem ousasse faze-lo. Durante quase 100 anos, ser monarquista, ou simplesmente ser anti-republicano, no Brasil, era ilegal!
21) Sobre as origens do Poder Moderador brasileiro, há algumas obras importantes, entre as quais se destacam os trabalhos de João de Scantimburgo, da Academia Brasileira de Letras.
22) Este autor tem um trabalho recente, muito interessante, intitulado Dom Obá II d´África, o Príncipe do Povo (Cia. Das Letras, SP, 1997), a respeito do mítico Príncipe Obá II, personagem popular carioca do séc. XIX, onde há início de apontamentos historiográficas tratando do relacionamento do povo com a Realeza.
23) Cf. REVISTA DO BRASIL, nº. 36, pp. 387 a 391, dez. 1918, vol. X - Ano III.
24) Designamos como democracismo ao orgulho democrático, i.e., a projeção de superioridade pelo pertencimento à maioria: "SOMOS MELHORES PORQUE SOMOS MAIORES". Não é preciso muito para perceber que, por analogia, classificamos aristocracismo ao orgulho aristocrático: "SOMOS MELHORES PORQUE SOMOS MENORES".
25) Nesse ínterim, é sempre válido recordar que a ação de D. Isabel na chamada Questão Religiosa, que envolveu a prisão dos bispos, foi sempre a de uma devota inconformada. Junto ao Pai, tanto quanto junto ao Duque de Caxias, suas delicadas pressões e seus rogos principescos de muito valeram neste processo histórico. É-nos claro que a classe dirigente senhorial brasileira, amplamente franco-maçônica não via bem o catolicismo de D. Isabel. Esta é uma das causas, pouquíssimo estudadas, da República no Brasil.
26) Cf. CALADO, Ivanir: Imperatriz no fim do mundo: Memórias dúbias de Amélia de Leuchtenberg, Rio Fundo Editora, Rio de Janeiro, 1992.
27) Conceito do historiador britânico Eric Hobsbwan, designativo dos fenômenos sócio-políticos totalitaristas do séc. XX.
28) Dizemos fideístas aqui querendo com isso dizer pura e simplesmente anti-materialistas e não considerando-nos seguidores da doutrina que defende a FÉ como único princípio de análise da Teologia, desprezando o uso da Razão.
29) Lembrando que HIERARQUIA significa etimologicamente governo do sagrado (hieros = santo, sagrado e arché = comando, governo) como não perceber a contradição em ver o Cristo, o Ungido, o Messias, em postura anti-hierárquica?
30) É o tema central da Carta que o Príncipe Senhor D. Luiz, atual Chefe da Casa Imperial do Brasil, bisneto e sucessor dinástico de D. Isabel, endereçou aos seus compatriotas em 6 de junho de 2000, por ocasião das comemorações de seu 62º aniversário, na Cidade Maravilhosa.
31) 13 DE MAIO é uma data muita festiva, sob vários aspectos. Neste dia, em 1767, nasceu D. João VI; em 1817, casou-se D. Pedro I com D. Leopoldina; em 1888, D. Isabel assinou a Lei Áurea. É ainda para os católicos o dia de Nossa Senhora de Fátima e o de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento. Dado que hoje coincidentemente celebramos o DIA DAS MÃES, não poderia haver maior homenagem àquela que foi uma das maiores Mães do Brasil e tb. a nossa Mãe Santíssima, a Virgem da Conceição Aparecida.

sábado, 20 de maio de 2000

Brasil: 500 anos das mesmas elites?


Tem feito parte do senso comum mais recente analisar pseudo-historicamente os 500 anos (da Descoberta ou Posse) do Brasil, sintetizando nossa riquíssima e, por vezes, gloriosíssima História pátria na seguinte frase: "O Brasil é o que é - em referência aos nossos atuais problemas políticos, econômicos e sociais que são, evidentemente, de ordem macroscópica - por causa da Colonização portuguesa e de sua continuação histórica: são 500 anos das mesmas elites nos governando!" (1).
Ao que se deve perguntar: será que isto é fato?

É nosso intuito aqui tentar esclarecer que não. E isto por vários fatores, sobretudo aqueles que se referem à gigantesca obra de nossa Monarquia nacional, de nosso Império.

Em primeiro lugar, considere-se o quanto é ultrapassada a utilização de afirmações de cunho historiográfico marxista para definir as Colonizações européias na América. Só daí já notaremos alguma espécie de reducionismo na afirmação de "500 anos das mesmas elites", pois a ótica na análise dessas "elites" é pura e simplesmente econômica. Nela sequer se cogitam valores interpretativos relacionados à Moral e à Religião, por exemplo. Como, graças a Deus, a atual historiografia se dedica imensamente à questão do imaginário e das mentalidades - onde a Religião tem papel psicossocial preponderante -, tal teorização acerca das "elites brasileiras" já parece absurda. Mas por que?

Explica-se.

Segundo nos alerta o renomado historiador português Prof. Dr. Joaquim Romero Magalhães, em entrevista concedida à Folha de São Paulo, em 10 de abril p.p. (2), por ocasião das comemorações dos 500 Anos do Brasil, ao ser questionado sobre qual é a síntese do legado português na História do Brasil: "Nenhuma colonização pode ser reduzida a um rol de crimes, mas nenhuma colonização é boa. A síntese do legado português no Brasil é a unidade do território, que nunca chegou à ruptura. A unidade que leva a que a língua seja a mesma, que nem sequer variações dialetais tenha. Disso, nós portugueses devemos nos honrar muito."

Ter percepção de que as Colonizações se constituem numa amálgama de processos culturais assimilatórios e formadores de novas identidades já é, portanto, o início do que se deve proceder quando de uma análise histórica, em nossa opinião, tendo em vista algo como uma EFEMÉRIDE NACIONAL. Fazer das comemorações festivas oportunidade de disfarce e escamoteamento dos problemas que esses mesmos processos acarretaram no decorrer dos séculos e mesmo considerá-los superados é, também evidentemente, vexatório (3). Contudo, centrar-se neles quase que com desespero e lamentações sado-masoquistas por certo não leva a lugar algum (4). O que se pode é constantemente buscar a sublimação desses problemas, e, sempre que se torne possível, a solução para aqueles que se apresentarem menos embaraçosos.

Mas retornando às famigeradas "elites", o que se pode dizer delas nestes 500 anos de Brasil? Que não são as mesmas, de jeito nenhum!!!

Se o Brasil-Colônia viu nos chamados homens bons (proprietários rurais que representavam seus interesses nas câmaras regionais), que compunham a chamada açucarocracia, conceito ultimamente inaugurado na historiografia pelo historiador Prof. Evaldo Cabral de Mello (5), os detentores do poder econômico, certamente também sentiu o peso do monopólio comercial com a Metrópole; sinal de que os "homens bons" não eram tão poderosos assim... Outra análise: se eles eram os grandes proprietários de "terras e de escravos", os homens fortes da época, pode-se concluir que o sentimento de dominação imperante era o despótico; contudo é tanto a Antropologia quanto a Sociologia que nos relembram das chamadas "lógicas relacionais" existentes entre as pessoas e as classes. É um de seus maiores expoentes entre nós, Gilberto Freyre - cujo centenário está se comemorando -, recordemo-nos, quem assim nos transmite, sobretudo em Casa-grande e Senzala.

Que o despotismo existia e era amplamente praticado, isto está fora de cogitação, porém deixar de se enxergar que o paternalismo também era tão fundamental quanto o primeiro sistema nas lógicas relacionais é, no mínimo, desprezar a religiosidade extremada tão característica destes mesmos homens e mentalidades.

Se esses "homens bons" não eram assim "tão bons" não nos compete julgar. O que importa é que foi de sua classe que provieram as famílias aristocráticas brasileiras. Foi deles que proveio, só para bem exemplificar na tônica que estamos realçando, aquele que pode ainda ser tido como o primeiro santo canonizado pela Igreja Católica nascido no Brasil: o Beato Frei Antonio de Sant'anna Galvão.

Foi sobretudo dos representantes dessas classes que saíram os nossos deputados nas Cortes de Lisboa e diplomatas, no período anterior e posterior à Independência, que tão sabiamente souberam conduzir o nosso processo de reconhecimento da Soberania nacional. Eram descendentes dos "homens bons" - quando não da própria Nobreza portuguesa - os Lima e Silva, os Andrada e Silva, os Nabuco de Araújo, os Hollanda Cavalcanti de Albuquerque, os Carneiro Leão, os Osório, os Paranhos do Rio Branco, etc., enfim TODAS AS ILUSTRÍSSIMAS ESTIRPES QUE AUXILIARAM NOSSOS IMPERADORES A FAZER O BRASIL. Foi dessa grei que saiu a quase totalidade dos titulares do Império; foram eles os membros da Nobreza do Brasil. Comparar tais elites às que nós temos hoje é quase repugnante aos olhos de um historiador sério, preocupado com uma História total e não parcial, ou "economicocêntrica". Chamar tais aristocratas de "despóticos representantes do poder agrário" é cometer o enorme pecado historiográfico do anacronismo. E isto porque ao fazê-lo está se enxergando, em verdade, uma época que sucedeu ao Brasil-Império em nossa História nacional: o BRASIL-REPÚBLICA.
Desprezar o fato de que a República nos foi perpetrada precisamente pelos representantes de uma elite, sim, mas de uma elite já oligarquizada - lembremo-nos de que a OLIGARQUIA é a corrupção da ARISTOCRACIA, em Aristóteles e Políbio -, de aspirações pouco escrupulosas e não atentar que são os seus representantes, em maior ou menor medida, os que ainda se mantém no poder há mais de 100 anos, é consideravelmente "criminoso" para a memória nacional.

Fatos sempre falam melhor por si só do que qualquer outra explanação. Assim, recordar que o nosso atual Presidente da República é neto de um dos militares mais exaltados do golpe de 1889 (6) - ainda que sem nenhum demérito para sua figura de pessoa e intelectual reconhecido -, que chegou mesmo a propor o fuzilamento de Dom Pedro II, sendo rechaçado pelo seu extremismo pelos próprios colegas de farda é, diríamos, no mínimo, elucidativo. Os exemplos poderiam se multiplicar às centenas, mas pode-se resumir nosso pensamento afirmando que as famílias nobres brasileiras vivem atualmente, em sua grande maioria, desprovidas de fortunas financeiras, algumas inclusive conhecendo a pobreza mais aviltante. Logo, afirmá-las detentoras de algum poder de mando no Brasil é, além de anacrônico, equivocado.

Evidente que o 15 de novembro de 1889 significa para a História do Brasil um marco divisório das lógicas relacionais entre senhores e escravos, pode-se dizer, ainda que somente como forma de expressão, entre "nobres e plebeus". Pois a República brasileira é filha de várias realidades humanas: do machismo de muitos políticos e militares inconformados com o futuro III Reinado, de Dona Isabel I; do racismo de muitos senhores de escravos menos piedosos, irritados com o ato de equiparação social que a Lei Áurea representou; em resumo, da sede de poder incontrolável de muitos homens desses dois campos. Uma vez banido definitivamente do Brasil o Poder Moderador, o Monarca, o Imperador, tudo se tornara mais fácil ao arrivismo destes pouco honrosos senhores. Muitos deles, sim, infelizmente representantes da descendência dos "homens bons" e, portanto, nobres e aristocratas brasileiros, corrompidos pela ganância e pelas "ilusões americanas", como diria Eduardo Prado.

E tudo isso, reparem, é só uma parte de nossa argumentação. Pois também é óbvio que temos em mente não ter sido o Império um "mar de rosas". Aliás, em nossa opinião, nunca, nada, o será. A questão é que na Monarquia as ambições pessoais e os interesses particulares foram - e ainda o são nos países que gozam dessa forma de governo - sempre sobrepujados pelos altos interesses da Nação. Se, portanto, houve políticos ambiciosos no Império, e certamente deles houve, não foram eles que "nos governaram". O sistema impedia que eles ascendessem de maneira avassaladora e provocassem danos irremediáveis. O Imperador tolhia suas ações desproporcionadas...

Não foi o próprio Ruy Barbosa, arrependido, quem constatou o "triunfo das nulidades" e o "arregimentar de poderes nas mãos dos maus" e a isso deu o nome de OBRA DA REPÚBLICA? Não foi Monteiro Lobato quem argüiu, já na terceira década da República brasileira, ser ela a "era das trevas" comparada à "época de ouro", que foi o Império. E observem que ambas as personagens históricas podem ser classificadas como tudo, menos... MONARQUISTAS. O primeiro era mais civilista e legalista que qualquer outra pessoa e se o status quo brasileiro era republicano, ele o aceitava plenamente, querendo inclusive... ser o Presidente da República. O segundo, quase pró-socialista, não enxergava necessariamente na Monarquia a grandeza do Brasil-Império, mas sim na figura austera e filosofal de Dom Pedro II. O Imperador e seu "lápis fatídico" eram os ídolos desse genial literato brasileiro de princípios do século XX; século esse, sim, que faria do Brasil, econômica, política e socialmente, para nossa grande tristeza, o que ele é hoje.

Não nos enganemos! Não nos deixemos levar por considerações simplistas como as de que o Brasil é fruto de "500 anos de poder das mesmas elites". Isso é falso! É hipócrita! É o tipo de argumento que faz dos "João Alves", dos "Sete Anões do Orçamento", dos "PC Farias", figuras do Brasil de sempre, e isso não é verdade! Se tantos afirmam que o Brasil-Império foi "uma escola de Estadistas" é porque alguma coisa havia lá que fazia a diferença...

Não se deixem, sobretudo os intelectuais esquerdistas, cegar pela miopia de compreender tão perfeitamente que "um escravo valia mais no passado para um senhor do que um trabalhador vale hoje para o patrão", sem notar que a diferença reside exatamente aí: na MONARQUIA, no princípio da existência de um SOBERANO, que etimologicamente quer dizer "alguém acima de tudo".

Não nos isolemos. Olhemos à nossa volta. Ao acaso os tão-colônia-quanto-nós Austrália, Canadá ou Nova Zelândia se mantiveram "coloniais", "atrasados", "subdesenvolvidos"? Sidney, a "Cidade-Presídio" do Império britânico do século XIX, não sediará as Olimpíadas de 2000?

São afirmações como essas, de que o Brasil é domínio de uma mesma elite há 500 anos, que certamente devem fazer com que as almas de nossos Imperadores, sobretudo o Senhor Dom Pedro II, não encontrem paz definitiva. Afinal, quando se "realizará a Justiça de Deus na voz da História", como ele mesmo profetizou?

Segundo nós, MONARQUISTAS, neste portentoso século XXI!

Dentro em breve descobriremos, nós e muitos outros povos, o quanto nos legaram à orfandade as Repúblicas e suas pseudo-Democracias. Até lá, e enquanto esses dias de "honra e glória" não chegam, comemoremos, sim, os nossos 500 ANOS DE BRASIL!!!


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NOTAS

1) Este pensamento subjaz, por exemplo, sem que se apresente claramente expressado, em matéria do Jornal do Brasil, de 22 de abril, intitulada "Elite comanda o país há 5 séculos" (cf. p. 3, Caderno POLÍTICA). Ali, se lê assim: "Nos mais de três séculos da Colônia, o poder era exercido apenas pelos brancos que possuíam terras e escravaria, nas câmaras dos homens bons. Com a Independência, o Brasil tornou-se Império e ganhou Legislativo nacional, onde a prioridade continuou sendo dos representantes do poder agrário. Passados 111 anos desde o advento da República, a elite econômica urbanizou-se mas não largou o comando..." (voltar)

2) Cf. Folha de São Paulo, Caderno BRASIL, p. 12. (voltar)

3) Tal processo é comum, dizem os setores esquerdizados de nossa sociedade, da "direita" que se locupleteia do poder. (voltar)

4) Já este processo é facilmente identificável na postura de nossas "esquerdas" intelectualizadas. (voltar)

5) Cf. Rubro Veio: O imaginário da Restauração pernambucana, 2ª edição, São Paulo, Ed. Topbooks, 1992. (voltar)

6) Trata-se do Tenente Joaquim Cardoso que, conforme noticia O Globo, de 18.1.2000, participara da junta militar liderada pelo Major Solón Ribeiro, que fora entregar à Família Imperial a mensagem de banimento. (voltar)


domingo, 1 de agosto de 1999

Mariae-Gloria, Princesa Mãe de Thurn-e-Taxis

S.A.S. a Princesa Mãe de Thurn-e-Taxis, nascida S.A.Il. Mariae-Gloria Ferdinanda Joachina Josephine Wilhelmine Huberta, Condessa Principesca e Senhora de Schönburg-Glauchau - em Al., Ihrer Erlaucht Mariae-Gloria, Gräfin und Herrin von Schönburg-Glauchau -, veio ao mundo em Stuttgart-Degerloch, em 23 de fevereiro de 1960.


A Princesa Gloria pertence a uma das dezenas de Linhagens Soberanas germânicas mediatizadas (1), portanto, àquilo que costumamos designar Média Realeza.


É a segunda filha e gênito de S.A.Il. Joachim (*1929 †1999), Conde Titular e Senhor de Schönburg, Conde Titular e Senhor de Glauchau e Waldenburg, Senhor de Rochsburg, de Penig, de Wechselburg e de Remse, filho de S.A.Il. o Conde Titular Carl de Schönburg-Glauchau (*1899 †1945) e de S.A.Il. e E. a Condessa Titular, nascida Condessa Maria Anna de Baworow-Baworowska (*1902 †1988), da Nobreza Polonesa.


A mãe da Princesa Gloria é a atual Condessa Mãe de Schönburg-Glauchau, nascida Condessa Beatrix Széchenyi de Sárvár e Felsövidék (*1930), filha de S.E. o Conde Titular Bálint Széchenyi de Sárvár e Felsövidék, de secular Nobreza da Hungria e de S.A. e E. a Condessa Titular, nascida Princesa Maria Pavlovna Galitzine.


Os pais da Princesa Gloria são divorciados civilmente desde 1986; ele uniu-se à Srta. Ursula Zwicker, em 1987, tendo tido dela uma filha. A Condessa Beatrix vive em Munique.


O falecido pai da Princesa habitava o Castelo de Rochsburg, lar ancestral da Família, recuperado após a Reunificação Alemã. Com o falecimento do Conde Joachim, em princípios do ano, assumiu a Chefia da Casa Condal Principesca de Schönburg-Glauchau seu segundo filho, o Conde Hereditário Alexander (*1969) - o filho mais velho, o Conde Carl Alban (*1966), havia renunciado aos seus direitos por ocasião de seu consórcio não dinástico, em 1995, com a Srta. Juliet Fowler (*1966), de quem tem dois filhos.


S.A.Il. o Conde Titular Alexander de Schönburg-Glauchau é ainda solteiro. Bem como seu falecido Pai, também é formado em Jornalismo.


A Princesa Gloria tem ainda uma irmã mais velha, a Condessa Maria-Felicitas (Maya) (*1958), que é divorciada e mãe de dois filhos do Sr. Friedrich Christian Flick, industrial alemão.


O Conde Titular de Schönburg-Glauchau é Chefe do segundo Ramo Condal da Casa Principesca de Schönburg, uma Dinastia alemã que remonta ao século XII, sendo proveniente da Francônia e da Turíngia. Importantes senhores feudais alemães, foram feitos Condes do Sacro Império Romano-Germânico em 1700. Mediatizados, foram posteriormente agraciados com dois lugares na antiga Câmara Alta do Reino da Saxônia, em 1831.


Os dois Ramos Principescos da Família são o primogênito, Schönburg-Waldenburg - cujo personagem de maior destaque na História da Europa foi a Princesa Sophie (*1885 †1936), que em 1914 viu seu esposo, o Príncipe Wilhelm de Wied (*1876 †1945) aceitar a Coroa do recentemente criado Principado da Albânia, o que fez do casal Príncipe e Princesa Reinantes da Albânia, situação alterada rapidamente com a intervenção das grandes potências, receosos da presença de uma Dinastia protestante em meio a um povo de maioria muçulmana (2) - e o secundogênito, Schönburg-Hartenstein. Ambos são luteranos; aliás, só mesmo o Ramo da Princesa Gloria manteve-se católico entre os Schönburg.


O pai da Princesa Gloria era Cavaleiro Bailio da Soberana Ordem Militar e Hospitaleira de São João de Jerusalém, dita Ordem de Malta.


Como as terras da Família eram confiscadas pelo regime comunista da Alemanha Oriental, a Princesa Gloria não teve, apesar de seus muitos títulos e prerrogativas principescas, uma infância de "conto de fadas". O mundo encantado ela só iria mesmo vir a conhecer enquanto "Cinderela" após contrair suas núpcias com um riquíssimo Príncipe germânico, o Titular da Casa de Thurn-e-Taxis.


A Casa Principesca de Thurn-e-Taxis é mundialmente célebre devido à função que exercia no interior do Sacro Império: os correios da época. Linhagem lombarda, os Tasso, cujos ramos atualmente são numerosos, também remontam ao século XII.


Os Thurn-e-Taxis especificamente - junção de um ramo dos Condes de Thurn-e-Valsássina com os Tasso austríacos (Taxis) - adquiriram fortuna e fama com as atividades postais, chegando a receber do Sacro Imperador o título de Grão-Mestres Hereditários dos Serviços Postais do Império, em 1615. Em 1695, foram feitos Príncipes do Sacro Império, por mercê de Sua Majestade Cesária o Senhor Leopold I.


Em 31 de maio de 1980, casavam-se no Castelo de Emmeramsplatz, na Cidade de Regensburg, o 11º Príncipe Titular de Thurn-e-Taxis, S.A.S. o Senhor Johannes (*1926 †1990), e a Condessa Principesca Gloria de Schönburg-Glauchau, primos distantes.


O Príncipe Johannes era filho de S.A.S. o Príncipe Titular Karl August (*1898 †1982) e de S.A.R. e S. a Princesa Titular, nascida Infanta Dona Maria Anna de Portugal (*1899 †1971), Princesa de Bragança, neta de El-Rei Dom Miguel I de Portugal e, portanto, Sobrinha-neta de nosso Imperador Senhor Dom Pedro I.


O Príncipe e a Princesa Titulares de Thurn-e-Taxis tiveram três filhos: a Princesa Maria Theresia, em 1980; a Princesa Elisabeth, em 1982 e o esperado Príncipe Hereditário Albert, em 1983.

Falecido em avançada idade o Príncipe Karl August em 1982, assumiu o título e a fortuna da Casa Principesca de Thurn-e-Taxis - a Dinastia mediatizada mais rica da Europa - o Príncipe Johannes.

Morto o Príncipe em 1990, herdou o título e as possessões o Principezinho Albert, de apenas 7 anos à época, fazendo dele o mais novo Titular de uma Casa Principesca européia.


A Princesa Gloria, que tornou-se a Princesa Mãe - os franceses usam mais correntemente a fórmula Princesse Douairière, que os ingleses costumam traduzir como Princess Dowager; nós, no entanto, preferimos o adjetivo Mãe, mais correto - de Thurn-e-Taxis, administra em nome do jovem Príncipe Titular, agora já com 16 anos, o patrimônio da Família, um pouco dilapidado nos últimos tempos por algumas crises financeiras, que todavia continua invejável no seio da Realeza e da Nobreza da Europa.

 
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NOTAS
 
1) Mediatização é o termo criado para explicar o processo por que passaram as Casas Soberanas germânicas (cerca de cento e vinte), pertencentes ao Sacro Império, que foram despojadas por Napoléon Bonaparte, o autodenominado Imperador dos Franceses, de sua antiga suserania, ou seja, deixaram de ser territórios imediatos do Poder Imperial e adquiriram um status mediato - daí a expressão mediatização - em relação a novos Soberanos, que não o do Sacro Império, pois este foi "dissolvido" pelo Corso em 1806. As Casas mediatizadas conseguiram obter do Congresso de Viena (1815) o reconhecimento de igualdade (em Fr. égalité de naissance) em relação às outras Dinastias Reinantes; segundo inúmeros genealogistas, essas Famílias foram verdadeiras reservas para fins matrimoniais durante o séc. XIX aos Príncipes não desejosos de perder seus direitos dinásticos, já que todas as Famílias Reais não permitiam à época o que se chama mésalliance, ou aliança desigual. (voltar)


2) Mais tarde, a Albânia seria uma Monarquia muçulmana com a ascensão do Bei de Mati, Ahmed Zogu, como Rei Zog I dos Albaneses, em 1928.(voltar)