sábado, 27 de outubro de 2012

Artigo – O casamento de Guillaume de Luxemburgo: êxtase de latinidade



O casamento de Guillaume de Luxemburgo:

êxtase de latinidade

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Bruno de Cerqueira*
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Acaba de se unir à condessa belga Stéphanie de Lannoy, 28 anos, o herdeiro do trono grão-ducal de Luxemburgo, Guillaume, 30 anos. Nosso Instituto enviou à prima-tia de Guillaume[1] uma mensagem de felicitações quando do noivado, como se lê aqui.
Foto de Guy Wolff. Copyright da Corte Grã-Ducal.
Acompanhando o longo cerimonial celebrado em 20 de outubro de 2012, um sábado de céu azul  límpido e claro — raro para os luxemburgueses —, pude notar quão latina se tornou essa realeza.
O noivo, Guillaume Jean Joseph Marie, é o filho mais velho do Grão-Duque Henri I — soberano do estado centro-europeu de 2600 quilômetros quadrados e 500 mil habitantes — e da Grã-Duquesa Maria Teresa, nascida em Cuba.
Pelo pai, Guillaume é um Nassau-WeilburgBorbone-ParmaBragança,Löwenstein-Wertheim-RosenbergSaxe-Cobourg-Gotha, Bernadotte, Wittelsbach, Hohenzollern-Sigmaringen, Schleswig-Holstein-Sondenburg-Glücksburg, Anhalt-Dessau etc. Pela mãe, Guillaume é um Mestre, Batista, Falla, Álvarez, Ramos-Almeyda, Tabío, Gonzalez de Mendoza, Espinosa de los Monteros, Bonet y Mora etc.
Já Stéphanie Marie Claudine Christine é, pelo pai, uma Lannoy, Ligne, Beeckman du Vieusart, Cossé-Brissac, Tayllerand-Périgord, Oultremont de Wégimont, Copis, Say, van der Noot d´Asschee, van Voden, Desmanet de Boutonville  etc. e, pela mãe, uma Della Faille de Leverghen, Brouchoven de Bergeyck, Meester, Plantin, Geelhand, Coussemaker, Mignard de la Mouillèreetc.
Guillaume é o futuro soberano dos luxemburgueses, um povo que fala um idioma germânico (Lëtzebuergesch) e descende de ribeirinhos do Mosela e do Reno. Luxemburgo, que guarda traços da presença do Império Romano, foi um feudo importante no Medievo. A Casa de Luxemburgo (linhagem Limburg-Arlon) foi uma dinastia famosa dos séculos XIII a XV e deu ao Sacro Império Romano-Germânico quatro imperadores e aos reinos da Bohêmia e da Hungria diversos soberanos.
Do séc. XV até fins do XVIII Luxemburgo foi uma província dos chamados “Países Baixos”, uma possessão da Casa da Áustria (dinastia Habsburg). Durante esse período, sofreu inúmeras invasões estrangeiras e retomadas por parte dos administradores habsbúrgicos.
Em 1815, após o tufão napoleônico, o Congresso de Viena reconheceu a autonomia do país, elevando-o a Grão-Ducado, sob a titularidade do soberano dos Países Baixos, ou seja, o chefe da dinastia Oranje-Nassau. Em 1830, muitos luxemburgueses se uniram aos belgas para exigir a independência do país frente aos neerlandeses, mas não tiveram sucesso. A Bélgica se emancipou, mas o Luxemburgo teve de esperar até 1890, quando morreu sem herdeiros masculinos o Rei Willem III (1817-1890). Um antigo pacto de família dos Nassauestipulava que em caso de extinção da linha masculina nos Países Baixos, o Luxemburgo passaria à outra linha masculina existente. Eram eles os Nassau-Weilburg, que governavam o Ducado de Nassau, anexado pelos prussianos em 1866.
Adolph I (1817-1905), último duque reinante de Nassau e irmão da Rainha Sophia da Suécia e Noruega (1836-1913), se tornou Adolphe I de Luxemburgo em 23 de novembro de 1890.
O filho de Adolphe I, Guillaume IV (1852-1912) reinou apenas sete anos. Sendo de origem luterana os Nassau-Weilburg o casamento de Guillaume com a Infanta D. Maria Anna de Portugal (1861-1942), filha do exilado D. Miguel I (irmão de D. Pedro I), foi uma bênção para os luxemburgueses, de maioria católica.
A Grã-Duquesa Marie Anne reinou como regente do Grão-Ducado de novembro de 1908, quando seu marido ficou doente, até junho de 1912, quando sua primogênita, Marie-Adelaïde I (1894-1924), foi declarada maior de idade e assumiu o governo. Impopular por ser considerada germanófila extremada, a Grã-Duquesa Marie-Adelaïde foi obrigada a abdicar em favor da irmã, Charlotte I (1896-1985) e retirou-se para um convento, em janeiro de 1919.
A Grã-Duquesa Charlotte é a grande “mãe” da história luxemburguesa. Sua memória é venerada pelo povo. Ela se casou com seu primo-irmão Félix (1893-1970), nascido Príncipe D. Felix de Parma, filho de sua tia D. Maria Antonia de Portugal (1862-1959) e irmão da Imperatriz Zita da Áustria (1892-1989).
A soberana que atuou na II Guerra Mundial, quando o III Reich anexou o pequeno país, e estabeleceu um governo luxemburguês no exílio, em Londres, reinou até 1964, quando abdicou para o filho mais velho, Jean I (1921- ).
Jean I casara-se em 1953 com a prima Joséphine-Charlotte (1927-2005), princesa da Bélgica. O fato de a Casa Real neerlandesa e a Casa Grã-Ducal luxemburguesa serem ramos da dinastia Nassau e de o futuro Grão-Duque Jean de Luxemburgo ter se casado com a filha do Rei Leopold III dos Belgas (1901-1983) ajudou a fomentar tremendamente o BENELUX, união econômica firmada em fevereiro de 1958 pelos três antigos “Países Baixos”.
O herdeiro de uma longa tradição de enlaces com “Ebenbürtigkeit”[2] era Henri (1955- ). Em 14 de fevereiro de 1981, contudo, o Grão-Duque hereditário Henri de Luxemburgo desposou Doña Maria Teresa Mestre y Batista-Falla (1956- )[3], sua colega na faculdade de Ciências Políticas em Genebra. A Senhorita Mestre era uma cubana emigrada para a Suíça, em decorrência da Revolução de 1959.
Em que pese o fato de Maria Teresa ser de família muito católica e ter um parentesco com a tia do então noivo, a Rainha Fabiola dos Belgas (nascidaDoña Fabiola de Mora y Aragón), esposa do Rei Baudouin (1930-1993), a verdade é que sua origem latino-americana e, portanto, “creolla”, instigou os luxemburgueses naquele princípio dos anos 1980[4].
Foto de Lola Velasco.Copyright da Corte Grã-Ducal.
Diz-se que a avó de Henri, a antiga monarca Charlotte I, temeu que na mistura étnica de que são compostos todos os latino-americanos, a jovem señorinapudesse ter sangue negro, para além do óbvio sangue ameríndio que possui[5]. Isto em nada diminui a memória da grande soberana, pois que ser racista era um pressuposto educacional e cultural da ampla maioria de seus contemporâneos, ainda mais se se tratasse de membros de sua classe sócio-genealógica.
Henri cumpriu os desejos de seu coração e desposou a mulher amada, dela gerando cinco filhos: Guillaume (1981), Félix (1984), Louis (1986), Alexandra (1991) e Sébastien (1992). Os jovens príncipes, que são morenos em meio a uma população majoritariamente alourada, são considerados belíssimos; os dois mais velhos parecem galãs de cinema.
Foto de Lola Velasco. Copyright da Corte Grã-Ducal.
As duas irmãs do Grão-Duque Henri, as Princesas Marie-Astrid (1954- ) e Margaretha (1957- ) desposaram primos mais germânicos que latinos: Carl Christian da Áustria (1954- ) e Nikolaus de Liechtenstein (1947- ). São felizes com as proles que geraram. Já os dois irmãos de Henri, Príncipes Jean (1957- ) e Guillaume (1963- ) uniram-se a latinas: o primeiro, morganaticamente, à francesa não-nobre Hélène Vestur e o caçula a uma anglo-hispano-ítalo-grega, Sibilla Weiller. A Princesa Sibilla de Luxemburgo (1968- ) é, pela mãe (Donna Olympia Torlonia di Civitelli-Cesi e Borbón), prima-sobrinha de D. Juan Carlos I da Espanha.
A segunda etnia mais presente no Luxemburgo, após os “nacionais”, é a portuguesa, cujos imigrantes buscam há décadas melhores condições de vida. Em nome deles, proferiu uma das “preces da comunidade” na missa de casamento de Guillaume e Stephanie a Duquesa de Bragança, D. Isabel (nascida Dona Isabel de Herédia), esposa de D. Duarte Pio, chefe da Casa Real de Portugal. Falando em Português, D. Isabel pediu acolhimento e benquerença aos pobres que batem às portas dos mais favorecidos.
Por fim, em explosão de latinidade, os convidados ao casamento principesco homenagearam com uma longa salva de palmas os jovens recém-casados ao término da cerimônia, sendo acompanhados até pelo Arcebispo de Luxemburgo, o jesuíta Dom Jean-Claude Hollerich, cuja homilia havia sido profícua em salientar a importância do papel social que terá um casal como Guillaume e Stéphanie, cujo cristianismo deve ser revigorado diariamente. Por sinal, concelebravam a missa de esponsais dois primos da noiva, membros da Casa de Della Faille de Leverghen. Além de baterem palmas, os convidados tiraram muitas fotos com seus smartphones e iphones
Na sacada do Palácio Grão-Ducal, especialmente preparada para a ocasião, os agora Grão-Duque e Grã-Duquesa hereditários de Luxemburgo[6] responderam a toda essa efusividade do povo e dos familiares com três beijos e abraços calorosos, para delírio dos presentes. Repórteres internacionais comentavam jamais ter visto algo assim…
Não faltou a essa profusão latina, sequer, a modernidade dos tempos. Em uma nação considerada bem conservadora, na véspera do casamento religioso, Guillaume e Stéphanie haviam sido unidos civilmente pelo burgomestre da cidade de Luxemburgo (Luxembourg-Ville), o Deputado Xavier Bettel. Ele é um político sério e respeitado do Partido Democrata (Demokratesch Partei), a agremiação liberal-conservadora que durante décadas tem administrado o Ministério dos Assuntos de Classe Média — sim, Luxemburgo possui um tal ministério… Bettel é assumidamente gay e vive com seu companheiro, Gauthier Destenay; ambos compareceram à missa na Catedral de Nossa Senhora de Luxemburgo.
Com a tradicional festa de fogos de artifícios terminou, à noite, a boda de Guillaume de Luxemburgo e Stéphanie de Lannoy. A nova princesa é loura, mas de uma família de castanhos em que só ela parece ter nascido “blonde, yeux bleux”, uma fórmula tradicionalíssima quando se costumava falar em príncipes europeus…[7]
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*Bruno de Cerqueira (33) é historiador, monarcólogo, especialista em Relações Internacionais, professor de Cerimonial e Protocolo, indigenista especializado (analista) da FUNAI e gestor do IDII.
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[1] A princesa belga Christine Marie Elisabeth de Ligne (1955- ), filha do Príncipe titular Antoine de Ligne (1925-2005) e da Princesa Alix de Luxemburgo (1929- ), é desde 1981, S.A.I.R. a Princesa D. Antonio João do Brasil, princesa de Orleans-e-Bragança. Ela e o marido geraram D. Pedro Luiz (1983-2009), D. Amélia (1984), D. Rafael Antonio (1986) e D. Maria Gabriela Fernanda (1989), herdeiros dos títulos e direitos dinásticos da Casa Imperial do Brasil.
[2] Ebenbürtigkeit é o nome do princípio de igualdade de nascimento que regia as uniões entre membros das dinastias europeias herdeiras do legitimismo proclamado pelo Congresso de Viena (1815). O  Ebenbürtigkeit  existe entre as linhagens da alta realeza (casas imperiais, reais, grã-ducais, ducais e principescas reinantes) e as da média realeza (composta, sobretudo, das casas principescas e condal-principescas do antigo Sacro Império Romano-Germânico, desapossadas por Napoléon Bonaparte), além de algumas das que chamamos de “baixa realeza” ou “pequena realeza”, que são as casas principescas nacionais da Áustria, da Hungria, da Bohêmia, da Polônia, da Bélgica, da Itália, da França etc.
[3] Nascida na cidade de Marianao, Província de Havana, é a filha de Don José Antonio Mestre y Álvarez (1926- ) e da Senhora, nascida Doña María Teresa Batista y Falla (1928-1988). Membros da alta aristocracia cubana, deixaram a ilha em outubro de 1959, se estabelecendo em Nova York. Em solo norte-americano, Maria Teresa estudou na Marymount School e no Lycée Français de Nova York. Indo residir na Europa, viveram em Santander e em Genebra.
Sobre sua origem cubana, declarou à imprensa tanto de Luxemburgo, quanto da Espanha, em 2002, quando visitou a terra natal, que “Hay algo muy fuerte que he descubierto y se llama cubanía, un sentimiento que cuando uno crece en una familia cubana no se pierde nunca.Me he dado cuenta de que sucede algo muy especial con los cubanos y es que están sumamente unidos. Por eso, aunque no estén viviendo en Cuba, crecen con Cuba, comen cubano, hablan cubano, sienten cubano y el corazón late cubano.”
[4] Os creollos são os colonos latino-americanos; membros das elites rurais do continente, descendem dos espanhois (colonizadores), tanto quanto dos índios (colonizados).
[5] Ela não é a primeira soberana-consorte europeia a ter sangue indígena. A atual rainha da Suécia, Silvia (1943- ) é nascida Silvia Renate [Soares de Toledo] Sommerlath, filha de Alice Soares de Toledo (1906-1997), paulista de família “quatrocentona”, décima-segunda-neta de Bartyra (Izabel Dias), a filha do Cacique Tibiriçá de Inhampuambuçu (?-1562). Mesmo a antecessora de Silvia no trono sueco, a Rainha Josephine (1807-1876), nascida nobre de Beauharnais, depois princesa de Leuchtenberg, possuía sangue ameríndio, uma vez que sua avó, a Imperatriz Joséphine dos Franceses (1763-1814), nascera na Martinica e era descendente de creollos pela mãe, Rose Claire des Vergers de Sannois (1736-1807). A Rainha Josephine da Suécia é a tetravó do próprio Grão-Duque Henri I de Luxemburgo…
[6] Uso aqui a fórmula “Grão-Duque hereditário” como versão imediata do antigo título germânico Erbgrossherzog, mas é de se notar que a imprensa francófona utiliza comumente “Grão-Duque herdeiro” (Grand-Duc héritier). A diferenciação está no fato de que os “Erb” eram herdeiros de principados germânicos (Erbprinz e Erbgrossherzog), enquanto os “Kron” eram herdeiros de impérios e reinos (Kronprinz). Qualquer fórmula está correta.
[7] Quero dedicar este artigo aos meus amigos indigenistas da Funai, que labutam arduamente pela dignificação da causa nobilíssima que é o Indigenismo Brasileiro, ultrajado há décadas. Dedico a todos eles, em especial os “antigos” Guilherme Carrano, Rogério Oliveira, o “semi-novo” Alex Noronha, e os “novos” Martha Montenegro, Elena Guimarães, Nina Almeida, Thaís Bittencourt, Danusa Sabala, Cecília Reigada, Bruna Seixas, Lorena Soares, Filipe Parente, Mauro Meirelles, Amaury Freitas, Pedro Grandi, Manoel Prado Jr. e Jezuíno Almeida.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Artigo - Mas será o benedito: até santa Isabel é?




Mas será o benedito: até santa Isabel é?

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Bruno de Cerqueira*
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A memória polimorfa de Dona Isabel de Bragança (1846-1921) tem demonstrado quanto é rica a História do Brasil.
O Instituto que leva seu nome e que nasceu em 2001 para revificar sua presença no panteão nacional, bem como a de todos os líderes do Abolicionismo dos anos 1880 e dos tempos anteriores à década gloriosa de nossa construção nacional, tem obtido vitórias incontestes nos “planos e metas” a que se propõe.
Tem diminuído consideravelmente nos diversos movimentos negros a aversão ao culto que os antigos escravos e boa parte de seus descendentes nutriam pela “loura flor da Casa de Bragança”, no dizer de José do Patrocínio (1853-1905) e aumentado, por parte de estudiosos dos abolicionismos brasileiros, o interesse na personagem feminina mais importante de nossa História.
Eis o noli me tangere do IDII: comprovar que nesse “altar da Pátria” cabe a ela o primeiro lugar. Independentemente de monarquismos, reacionarismos, catolicismos e outros ismos. Por brasilidade.
Recentemente, no programa popular “O Maior Brasileiro de Todos os Tempos”, do SBT, sua memória venceu a do Presidente Fernando Henrique Cardoso, que nos governou na redemocratização brasileira por que temos passado, desde o fim do período militar (1964-1985). Em que pese o fato de não haver o necessário distanciamento para julgar a vida e a obra desse político social-democrata brasileiro, é forçoso reconhecer que a figura da eterna “Princesa Isabel” suplanta a maioria de seus concorrentes. Di-lo Joaquim Nabuco (1849-1910), nos inúmeros textos em que descreve o fim da barbárie escravagista entre nós.
O mesmo programa televisivo já demonstrou que nem mesmo a queridíssima Irmã Dulce (1914-1992), de memória bem mais recente que a Redentora, é-lhe superior em apreço popular. Por óbvio, a metodologia da emissora na elaboração dos “shows” seria matéria para dissertações e teses tanto em Comunicação Social, quanto em História da Cultura, mas o que de fato importa, para o IDII, é proclamar a grandeza da mulher que não pôde reinar em nosso País.
Por fim, nasce agora um movimento, no seio da Igreja Católica, que deseja ver D. Isabel do Brasil beatificada e, quiçá, canonizada. Se durante o curso de sua vida terrena seu catolicismo era motivo de repulsa, indignação, estupefação, despeito, ataques e vilipêndios — era chamada de “beata, caturra, fanática” —, imagina-se o que não ocorrerá se a Santa Sé Apostólica, através da Sagrada Congregação para a Causa dos Santos — estes os nomes técnicos para “Vaticano” e seu ministério de assuntos hagiográficos — proclamá-la “Serva de Deus” no ano que vem, por ocasião do Encontro Mundial da Juventude com o Papa Bento XVI. Será o primeiro passo para sua beatificação, se assim Roma decidir. Todavia, para se chegar ao Roma locuta, causa finitapassam-se décadas ou séculos…
“O Vaticano faz seus santos quando quer e bem entende: tudo pura política!”, dizia-me um professor na graduação de História, na PUC-Rio, em reação a uma contraposição minha, no que tange à administração nassoviana em Pernambuco. Indubitável, dizia eu, que o Conde Principesco Soberano de Nassau-Siegen, Johann Moritz (1604-1679), tenha sido um culto e liberal governante do Brasil Holandês, mas indubitável, também, que ele era acompanhado de huguenotes ignaros e boçais, que foram capazes de queimar vivos mais de 40 católicos dentro de uma igreja, no Rio Grande do Norte — João Paulo II os reconheceu como “Mártires da Fé”, em 1998, e o pontífice atual os beatificou em 2008.
Pois bem: uma associação diocesana anti-abortista de Taubaté (SP) resolveu solicitar a abertura do processo de beatificação de D. Isabel na Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. Foi informada, contudo, que primeiramente a Arquidiocese de Ruão (Rouen), na França, onde D. Isabel faleceu, deverá ser ouvida e o ordinário local (bispo) autorizar o processo. Os restos mortais da “candidata a santa” estão, por sua vez, em Petrópolis, na catedral que ela ergueu, de maneira que outra autoridade eclesiástica, o Bispo de Petrópolis, deverá, em caso de prosseguirem os trâmites, autorizar a abertura do jazigo, se for necessário. A sé de Petrópolis, contudo, está vaga, desde que se foi para a Europa D. Filippo Santoro, um “isabelófilo” convicto, diga-se de passagem.
Como se vê, todas essas minudências processuais envolvem Direito Canônico, Eclesiologia, Hagiologia, mas também envolvem História.
Mas será o benedito? Por que ela é santa? Por ter abolido a escravidão com a Lei Áurea e perdido o trono? Por ter sido católica, papista, ultra-montana? Por ter recebido de Leão XIII a Rosa de Ouro? Por ter se negado a permitir a ereção de estátua sua, como Redentora, sugerindo que se erigisse uma estátua ao Cristo, único Redentor? Por ter sido amiga de São João Bosco e São Pio X? Além do mais, que história é essa de santidade? Isto existe? Alguém crê em santidade, ainda mais de personagens políticos, em pleno século XXI?
As respostas são variadas e as perguntas se desdobram.
Para um historiador cristão, contudo, as respostas são positivas. Se a maior parte das escolas historiográficas atuais é composta de ateístas ou agnósticos há os que, como Jacques Le Goff e o jesuíta francês Michel de Certeau (1925-1986), não abandonam o culto do Cristo que o mundo viu nascer 2000 anos atrás.
Karl Rahner (1904-1985), um dos maiores teólogos germânicos de todos os tempos, assim definia em seu Grundkurs des Glaubens (1976) qual a tarefa do historiador cristão:
O historiador cristão das religiões não precisa conceber a história religiosa extracristã e extrabíblica como mera história da atividade religiosa do homem ou ainda como pura deprava­ção da possibilidade humana de fazer religião. Na história reli­giosa extracristã ele pode tranqüilamente observar, descrever, ana­lisar e interpretar em suas últimas intenções também os fenômenos religiosos, e, se também aí vê em ação o Deus da revela­ção vétero e neotestamentária — não obstante toda a primitividade e depravação que naturalmente existem na história religio­sa, não está se opondo absolutamente à pretensão de absolu­to que tem o cristianismo.
(…) Em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado temos um critério para discernir, na história religiosa concreta, entre o que é mal-entendido huma­no da experiência transcendental de Deus e o que é legítima ex­plicação dela. Somente partindo de Jesus, é possível realizar em última análise semelhante discernimento dos espíritos.
(…) Se livremente, co­mo simples historiadores e cientistas da religião — independen­temente de nossa fé em Jesus Cristo —, buscássemos penetrar no Antigo Testamento e em seus fenômenos religiosos histori­camente assegurados, não possuiríamos nenhum critério para distinguir em últimos termos o que é pura e legítima manifesta­ção (derivada da natureza da autocomunicação transcendental de Deus) e objetivação histórica dessa autocomunicação divina e o que constitui depravação redutiva dela; aí deveríamos dis­tinguir ulteriormente com mais precisão (o que uma vez mais seria impossível sem olharmos para Jesus Cristo) entre o que, enquanto objetivação progressiva e epocal da experiência trans­cendental de Deus, pode-se considerar legítimo — ainda que so­mente como explicação provisória, mas permeada de intrínseca dinâmica rumo à revelação plena em Jesus — e o que não pas­sou de depravação, constatável já com referência à situação veterotestamentária então existente.
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De maneira que não nos preocupemos. Se a Divina Onipotência quiser, a Igreja beatificará e canonizará a Redentora da História do Brasil, aquela a quem André Rebouças (1838-1898) e o Povo Brasileiro creditaram o mais glorioso dia de nossa Nacionalidade.
Aquela que, por ser MULHER, foi desprezada e rechaçada. Banida do território nacional em 1889, foi aclamada “Dona Isabel I” apenas pela corte de exilados que a cercava em 1891, quando morreu-lhe o pai, D. Pedro II, no Hotel Bedford, em Paris. Amargando o maior exílio concedido a um brasileiro em toda a História, nunca reviu a Pátria, morrendo saudosa e piedosamente em 1921.
Assis Chateaubriand Bandeira de Mello (1892-1968) sempre defendeu, como, aliás, Nabuco antes dele, que o reinado de D. Isabel no exílio foi o que lhe concedeu a coroa de glórias, ainda em vida. Nossa soberana desterrada não passou um dia sequer sem rezar e trabalhar pelo seu povo, recebendo dos governantes da República Velha — velha de coronelismo, velha de racismo, velha de asco pela cultura popular, velha de servilismo aos Estados Unidos, velha de patriarcalismo — total e pleno desdém.
Mas ganhando do Povo, sobretudo dos negros, os mais sofridos dos Brasileiros, o amor incondicional, traduzido na cantiga “Princesa Dona Isabel / mamãe disse que a senhora / perdeu seu trono na terra / mas tem um mais lindo agora / no céu está esse trono / que agora a senhora tem / que além de ser mais bonito / ninguém lho tira, ninguém”
Quem quiser conhecer um pouquinho de história da historiografia sobre nossa personagem pode ler o livro D. Isabel I a Redentora: textos e documentos sobre a imperatriz exilada do Brasil em seus 160 anos de nascimento(2006). Não é um panegírico, mas certamente é um libelo. Defende veementemente, entre outras coisas, que se estude a transição do Oitocentos para o Novecentos brasileiro e, particularmente, convida as historiadoras — mais que os historiadores — a investigarem os projetos para o III Reinado, as biografias dos grandes homens que estavam ao lado da Regente e que não puderam ser ministros e conselheiros de Estado de D. Isabel I porque ela não reinou.
Parafraseando o político e pensador católico brasileiro Plínio Corrêa de Oliveira (1908-1995) e sem tefepismo nenhum, pois que não sou adepto de nenhum sectarismo religioso, a saída da Princesa Imperial do Brasil, naquela fatídica madrugada de 17 de novembro de 1889 foi, de um ponto de vista histórico, o “entardecer da Pátria”! Ou para Rebouças, ainda mais enfático: “Acabou-se a civilização brasileira!”.
Cabe a nós, isabelófilos e neoabolicionistas, trabalharmos pela grandeza do Brasil, sempre. Se isto inclui congratular o Papa pela iniciativa que nem se sabe se terá, de fazer nascer uma “Santa Isabel do Brasil”, muito bem. Se não inclui, muito bem também! Santos são heróis da fé, segundo a Igreja; D. Isabel já é heroína do Brasil há muito tempo…
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Bruno de Cerqueira (33) é historiador, monarcólogo, especialista em Relações Internacionais, professor de Cerimonial e Protocolo,indigenista especializado (analista) da FUNAI e gestor do IDII. 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Artigo - O jubileu de diamante, a monarquia britânica e o papado



O jubileu de diamante, a monarquia britânica e o papado
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Bruno de Cerqueira*
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Inúmeras têm sido as manifestações por ocasião dos 60 anos de reinado de Elizabeth II da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, do Canadá, da Austrália, da Nova Zelândia, da Jamaica, de Belize etc. Trata-se do Chefe de Estado mais importante do mundo, pois que titulariza a maior quantidade de nações!
Em artigo muito interessante (http://cronai.wordpress.com/2012/06/07/god-save-the-queen/), a jornalista Cora Ronai acaba de nos falar sobre sua continuada aversão à instituição monárquica, mas salienta ela admirar de forma inconteste a monarca mais visada, fotografada, comentada e, por muitos, venerada, do planeta.
Elizabeth Alexandra Mary desperta nas pessoas sentimentos complexos: respeito, admiração e acatamento nos súditos fieis; indignação e até afetação nos republicanos do Reino Unido – eles existem! – e dos “Overseas Realms”. Àqueles que desejam e batalham pelo fim da monarquia na “terra da Rainha” e em seus antigos domínios coloniais, a tarefa é hercúlea, senão quimérica.
O filme “The Queen”, de Stephen Frears (2007), interpreta com maestria os dissabores e infortúnios da soberana quando morreu-lhe a antiga nora e, em alguns sentidos, rival na atenção do público britânico e mundial. Por óbvio os diálogos são frutos da imaginação do diretor e dos escritores, mas vários se aproximam da possibilidade de verossimilhança. Aliás, é necessário reconhecer que o grande sucesso da película se deve à brilhante Helen Mirren e demais astros do elenco, para além da direção; contudo, o que ninguém comenta é que o filme é fortemente baseado em alguns documentários da rede estatal britânica BBC, em especial o “Queen Elizabeth II reflects on her service: rare footage”, de 1992.
Há muito a se dizer sobre a era elisabetana no séc. XX. A “era elisabetana”, como costumamos designar, é o reinado de sua avoenga, Elizabeth I (1533-1603), que governou de 1558 até a morte. Trata-se do Quinhentos – forma com a qual os historiadores italianos gostam de apelidar os séculos, após o XIV – na Grande Albion, uma época de terríveis conflitos religiosos.
E aqui entramos no objeto do presente artigo, despretensioso, mas que deseja instigar os nossos leitores.
Sua Santidade o Papa acaba de enviar um telegrama a Sua Majestade Graciosíssima a Rainha, conforme reporta a agência de notícias vaticana ZENIT:
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CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 6 de junho de 2012 (ZENIT.org) – Por ocasião do Jubileu de Diamante da rainha Elizabeth II, o papa Bento XVI enviou um telegrama de cumprimentos à monarca.
 
O Santo Padre ofereceu os seus “sinceros parabéns a Sua Majestade”, elogiando Elizabeth II por dar “aos súditos e ao mundo um exemplo inspirador de dedicação ao dever e de compromisso com os princípios da liberdade, da justiça e da democracia, conservando uma nobre visão do papel de uma monarquia cristã”.
 
Bento XVI recordou “as corteses boas-vindas” recebidas de Elizabeth II em Edimburgo, em setembro de 2010, no início da sua visita pastoral ao Reino Unido, e renovou os agradecimentos pela hospitalidade experimentada na ocasião.
 
“Seu compromisso pessoal com a cooperação e com o respeito mútuo entre os crentes das diferentes tradições religiosas tem contribuído em grande medida para incentivar as relações ecumênicas e inter-religiosas através do seu reinado”.
 
Confiando a rainha e toda a família real “à proteção de Deus Todo-Poderoso”, Bento XVI reiterou seus “melhores desejos” e assegurou suas orações por “saúde e prosperidade contínuas”.
 
 
O que vemos, portanto? Vemos que na segunda era elisabetana aqueles conflitos e guerras de séculos atrás são finalmente superados.
O republicanismo norte-irlandês, bastante imbuído de catolicismo fanático, também finou-se, e a Rainha visitou a República da Irlanda em maio de 2011.
Alguém sabe dizer o quanto a “Defensora da Fé”, um dos muitos títulos de realeza que Elizabeth II possui, trabalhou por tudo isso? Em sua discrição absoluta, sua quase “marmoreidade”, alguém sabe dizer o quanto a Rainha é uma pessoa verdadeiramente cristã e verdadeiramente caridosa para com os outros, os estranhos, os pobres e, sobretudo, os diferentes?
Há várias biografias da Rainha. Devo confessar que nunca li nenhuma. Mas arrisco opinar que se trata de uma pessoa profundamente religiosa, uma crente e fiel em Jesus Cristo das maiores que já se viu na Terra. Alguém em quem a fórmula da tradição, “By the Grace of God, Queen” ressoa de forma permanente. Alguém que pôs toda sua vida, e seu reinado, a serviço dos seus povos, que são centenas de nações e etnias.
A Chefe da Commonwealth é uma das maiores cristãs de nosso planeta e mirando Elizabeth II nós podemos ver o quanto as teorizações de Ciência Política e das ciências sociais em geral sobre a separação entre Igreja e Estado podem falhar… Um documentário antigo, que se pode encontrar no site da Pathé, diz exatamente o contrário do que aprendemos na academia: que a união entre a igreja e o estado (anglicanismo na Inglaterra e em Gales, presbiterianismo escocês) é uma fórmula capabilíssima de trazer bem-estar ao povo… Como diria Levis-Strauss, isso é bom para pensar! Afinal, na Dinamarca, na Suécia e na Noruega o luteranismo é a religião oficial e ninguém reclama disso.
Independentemente de ser a favor ou contra essa união, que nos catolicismos nacionais sempre foi uma tortuosa realidade, quero chamar a atenção para as palavras papais: a monarquia de Elizabeth II e de seus ancestrais é uma monarquia cristã. O significado disso é enorme.
Que não me venha nenhum amigo com o clichê de que ser cristão não é ser santo e perfeito, pois todos o sabemos. Mas ser cristão significa almejar essa santidade cuja fonte inestimável e inesgotável é o próprio Senhor e Rei do Universo.
Essa é a grande marca, a meu ver, da segunda era elisabetana, tão pouco investigada e descurada, como chamo atenção: a do cristianismo enraizado de sua soberana, sempre tentando superar desgraças, rancores, desamores, que o passado teima em manter e retroalimentar no presente.
Quando o Príncipe William desposou Catherine Elizabeth Middleton, na Abadia de Westminster, tive oportunidade de comentar o casamento na Globonews. Na hora em que o noivo adentrou o presbitério, ele se retirou com o irmão, o Príncipe Henry, para um lugar atrás, ou ao lado, por alguns minutos. Percebi que nenhum comentarista entendeu aquilo. Daí eu disse: nesse momento o príncipe foi rezar em um dos muitos altares laterais que a igreja possui, para rogar a Deus, através de seus inúmeros antepassados enterrados ali, alguns dos quais canonizados pela Igreja e celebrados até hoje pelos anglicanos mundo-afora, para que sua união com a jovem e bela “Kate” seja feliz e abençoada. Coisas de um neto de Elizabeth II…
Parodiando o hino,God saves the Queen!
o
Bruno de Cerqueira, indigenista especializado (analista) da Funai,
é historiador, internacionalista e monarcólogo.
Leciona Organização de Eventos, Cerimonial e Protocolo. 

domingo, 6 de fevereiro de 2011

A sagração de D. Pedro, D. Paulo Cezar e D. Nelson Francelino




Assisti ontem de manhã (05.02.2011), na Catedral Metropolitana de São Sebastião do Rio de Janeiro, a uma das mais belas cerimônias que a Santa Mãe Igreja ainda guarda dos tempos remotos (apostólicos, patrísticos e medievais).

Trata-se da sagração episcopal, que é a plenificação do Sacramento da Ordem. Ou seja, o momento em que o homem que havia sido diácono e presbítero se torna bispo (episcopus), ad aeternum.

Eis um momento em que tenho muito orgulho de ser católico – um bom orgulho, quero crer... Essa é uma de nossas poucas Missas Solenes na qual a liturgia sacrossanta de nossos mais longínquos antepassados é bem-quista, bem-amada e praticada.

O mundo atual é o do capitalismo selvagem, desumanizante e, obviamente, dessacralizante. Foi-se o tempo em que o feudalismo era o sistema econômico e o cristocentrismo era a marca das sociedades europeias. Infelizmente, isso não volta mais.

Pelo menos pudemos herdar desses avoengos seus cerimoniais e cultos de adoração à Santíssima Trindade, juntamente com a veneração a Nossa Senhora e aos Santos e Santas de Deus.

A solenidade que assisti ontem durou quase três horas... como soe ocorrer nas grandes festas litúrgicas em que incidem procissões externas e internas aos templos, ladainhas e muita música.

Graças ao Bom Deus, eu não tive de suportar aquelas músicas ultra-populares e, a meu ver, ultra-piegas das Missas ordinárias. Presenciei durante 3 horas, de pé, pois não havia chegado às 8h30min e sim às 9h15min, já não havendo lugares vazios, uma das cerimônias de que mais gosto em minha religião: o rito da sucessão apostólica.

Uma repetição, um rito, uma súplica à Divindade para que um novo apóstolo nasça no meio de nós. Um ritual que tem dois mil anos e que, certamente, também deita raízes nos que antecederam ao Cristianismo. Similar, mas não igual – nada é igual (!) – às coroações, às aclamações, enfim aos diversos modos de tornar “sacro” o que é “profano”.

Lembrava-nos o famoso teólogo católico Prof. Dr. Pe. Alfonso Garcia Rubio, em uma das aulas de Antropologia Teológica que tive a graça de assistir em minha querida PUC-Rio, que nada é de fato SAGRADO na Igreja, sendo tudo CON-SAGRADO, uma vez que tudo que é nosso é humano, sendo divino somente o próprio Cristo. Por outro lado, a Igreja é o Corpo Místico de Cristo... Essas são minúcias teológicas que não adentrarei aqui. Mas evidente que entendi o ensinamento e que pude perscrutar o significado. Aliás, antes disso eu já era um católico crítico – jamais pretendo deixar de sê-lo. Sempre enxerguei os homens da Igreja como uma coisa e a Igreja (Esposa e Corpo Místico) como outra coisa.    

Voltando à cerimônia e sua beleza: o ordenante/sagrante principal era nosso estimado arcebispo e metropolita, D. Orani João Tempesta, um monge e abade cisterciense, portanto alguém bastante conhecedor das liturgias medievais. Os outros dois sagrantes eram D. Rafael Llano Cifuentes, Bispo Emérito de Nova Friburgo e membro da prelazia de Opus Dei, e D. Frei Elias James Manning, um franciscano nascido em Nova York e que governa a Diocese de Valença desde 1990. Devo dizer que a figura de D. Elias me transpareceu santidade...

Além desses, havia um sem-número de arcebispos e bispos – dentre eles Meu Arcebispo, D. Frei Alano Maria Pena OP, Metropolita de Niterói. Também o Senhor D. Eusébio Cardeal Scheid, Arcebispo Emérito do Rio, marcou presença. Centenas de sacerdotes, diáconos e seminaristas arquidiocesanos, sem contar as veneráveis freirinhas de diversas ordens. Da parte de nossos irmãos protestantes, pude perceber um hierarca anglicano e um representante luterano. Não sei se havia metodistas e presbiterianos.

O momento mais tocante para mim, na liturgia de ordenação presbiteral e na episcopal é o da Ladainha... ali estão sendo invocados todos aqueles que nos precederam na Fé – por representação, óbvio, pois ninguém acha que se poderia dizer o nome de TODOS os santos e mártires do Cristianismo, desde São Pedro e São Paulo até os atuais... Fulgurante ver os ordenandos prostrados ao chão, em sinal de humildade profunda perante o Altar do Santíssimo.

Belíssimo também o momento dos cumprimentos entre os neobispos e os antigos: estes beijam as mãos, osculando levemente o anel, de seus novos colegas.

Os três novos bispos auxiliares da Sé de São Sebastião são ligados à Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Que Deus os abençoe e que sejam símbolos de uma perene evangelização entre os jovens puquianos e de outras instituições de ensino cristãs.

Por fim, o que desejar a D. Pedro, D. Paulo Cezar e D. Nelson Francelino? Que sejam santos!

Estou longe de ser um reacionário católico, mas vivo na contramão do laicismo imperante. Continuo a acreditar piamente na santidade das mulheres e dos homens de Deus que se dedicam a Sua Obra, a Sua Igreja, aos Seus Filhos.

Amém! 

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Quem precisa de Cerimonial e Protocolo?


Quem precisa de Cerimonial e Protocolo?*


Bruno de Cerqueira**



O Brasil assistiu nos últimos dias a inúmeras cerimônias e solenidades nas quais se deu posse aos novos Governadores de Estado e à nova Presidenta da República Federativa.

Desde as diplomações, ocorridas em dezembro de 2010, o povo era informado pela televisão e demais mídias que os futuros chefes do Poder Executivo na federação e nos estados seriam solenemente empossados em 1o de janeiro de 2010.

Nessas situações, os brasileiros, que costumam ser descritos recorrentemente por informais, calorosos e não afeitos à ritualística e ao rigor protocolares — será que de fato são (?) —, notam a necessidade da “liturgia civil”, a premência do simbolismo de Estado, a magia que o Poder exerce sobre todos.

O problema é que o Cerimonial e o Protocolo não existem, não estão lá, somente quando há uma cerimônia, uma festividade, em que poucos, alguns ou milhares afluem. Eles sempre estão lá. Onde houver poder, comando, governo (KRATOS), haverá necessariamente aqueles que cuidam, orientam, assessoram, amparam, secundam, os que podem, comandam e governam.

Na bela sociedade sonhada pelos anarquistas, o autogoverno, a autarquização do humano, é evidente que os profissionais de C & P não teriam função social. Numa tal sociedade todos nós governaríamos em conjunto e a coletividade prescindiria das representações. O Estado não seria suprimido, mas ele não teria Chefe. A igualdade entre todos os cidadãos seria dada justamente pela ação política da qual todos seriam dotados, mas ela não estancaria a diversidade humana.

O anarquismo nada tem a ver com o comunismo de Marx, onde o Estado cessaria de existir no fim do socialismo, uma vez que o filósofo o considerava espaço privilegiado da atuação dos burgueses (classe dirigente da política). Após a ditadura do proletariado, adviria a sociedade sem Estado e sem classes, onde todos, absolutamente todos seriam iguais ou, melhor dizendo, todos seriam comuns – daí que a palavra comunismo possa ter também essa apreciação, e não somente a da ideia de uma partilha plena dos bens da terra.

A neo-humanidade sobre a qual Marx discorreu não existe e jamais existirá, ao menos de um ponto de vista da política tal como a conhecemos. Isso não significa que seu pensamento deva ser odiado ou menosprezado, apenas que deva ser estudado. Também é grande o erro em enxergar semelhança ou proximidade entre o comunismo marxiano e o comunitarismo cristão — explicitado nos Evangelhos, tanto quanto em A UTOPIA, de São Tomás Morus, e outros livros de grandes humanistas cristãos —, como tentaram fazer, sem sucesso, pensadores católicos ou protestantes filo-socialistas no século XX.

O “novo homem” do Homem-Deus (Jesus de Nazaré), o cristão pleno, o santo, está longe de ser um “comum”. A profecia paulina, em Colossenses 3,11 (CRISTO TUDO EM TODOS) é o caminho a ser seguido na peregrinação terrestre, mas não a própria peregrinação, que é cheia de percalços, como sabemos. A santidade é a meta, mas não a realidade – pelo menos não a realidade integral. Teologicamente, a santidade objetiva faz de cada cristão um “profeta, sacerdote e rei”, mas a santidade subjetiva só é alcançável durante uma vida de virtudes. A proclamação universal da venerabilidade de um “santo” — rememorado nos altares do mundo inteiro — dá-se muitos anos depois de sua morte, após longo processo canônico, e essa santificação resulta justamente em mais uma diferenciação, um grau superior na proximidade ao HIEROS supremo, O Altíssimo.

De maneira que voltando às linhas que iniciei acima, creio que possamos dizer com alguma certeza que onde haja rito haverá cerimonial e onde haja hierarquia haverá protocolo. E a vida humana, individual e coletivamente, é prenhe de ritos e de hierarquias.

Como estudioso de ritualística e de hierarquia desde muito jovem, me debrucei sobre a monarcologia, a eclesiologia, a genealogia dinástica, a antropologia da Política, a sociologia e a psicologia das Religiões etc. De tudo que li – e não foi tanta coisa assim – pude perceber que ao Cerimonial e ao Protocolo, enquanto matéria ou disciplina da formação do jovem graduando em Relações Públicas, Relações Internacionais, Comunicação Social, Turismologia ou Hotelaria, não se dá a importância devida. Somente na primeira faculdade citada (RP), existe, em geral, uma cadeira que costumam denominar “Organização de Eventos, Cerimonial e Protocolo”.

Ocorre, contudo, que parece não haver uma Teoria de Cerimonial e Protocolo academicamente estabelecida e este acaba sendo o motivo principal para evitar seu estudo nas universidades. Por outro lado, os que trabalham com C & P não costumam problematizar e sistematizar suas atividades e os conceitos que as orientam, permitindo lacunas e mal-entendidos na visão social que se tem a seu respeito. Os que apreciam a denominação de “cerimonialistas” se reúnem em associações de classe e entidades acadêmicas voltadas ao estudo de C & P, o que é extremamente louvável. O CNCP — Comitê Nacional do Cerimonial Público — entabula, inclusive, o reconhecimento da profissão de cerimonialista na Câmara dos Deputados. Há de se ter, todavia, uma visão bastante crítica sobre o chamado “cerimonialista” que nada conheça ou compreenda de Protocolo, por exemplo, sendo um mero organizador de casamentos e festas de crianças.

De maneira que C & P ficam restritos à área de atuação dos diplomatas e dos profissionais (internacionalistas, turismólogos, comunicólogos, historiadores e outros) que trabalham com eventos, cerimônias e solenidades nos governos nacionais, regionais e locais.

Mas afinal, quem precisa de Cerimonial e Protocolo?

Todos!

Se o senso-comum tende a imaginar C & P como “etiqueta”, “pompa e circunstância” e até, jocosamente, como “afrescalhamento˜, não há sinonímia. A etiqueta, aqui entendida como “pequena Ética” ou “Ética dos detalhes”, permeia o Protocolo, sedimenta-o, mas não se funde com ele. A pompa-e-circunstância, expressão que alude às marchas militares (Opus 39) compostas por Sir Edward Elgar (1857-1934), pode ser vista como o brilho do Protocolo, como seu relume, mas não o encarna, apenas lhe adjaz. Por fim, o eventual afrescalhamento ou a afetação dos que trabalham com C & P não podem ser vistos como apanágios seus e estão longe de constituir conditio sine qua nom da função. Uma atividade onde a tensão é constante, mas a serenidade é fundamental, a temperança, indispensável.

O Cerimonial é a arte/ciência/conhecimento que elabora o curso dos rituais, dos eventos, das solenidades; já o Protocolo é a arte/ciência/conhecimento que comunica esses eventos, é o código civilizacional por meio do qual o humano perscruta os ritos imemoriais, as tradições ancestrais e, mormente, a expressão da hierarquia — “governo do sagrado”, como sempre ressalto — através das normas de precedência, dos títulos, dos tratamentos.

 A resposta à pergunta do texto é, portanto, todos os que:

  • Comunicam-se;
  • Trabalham;
  • Congraçam.

Excetuando-se os bebês, que somente são envolvidos com Cerimonial no momento do batizado, ou algum outro ritual religioso iniciatório, todos os seres humanos necessitam conhecer, minimamente que seja, procedimentos cerimoniais e protocolares. No fenômeno da escolarização, a criança participa de formaturas, festas, torneios esportivos, missas ou serviços religiosos solenes etc. Chegando à faculdade, o jovem se depara com aulas inaugurais, posses, apresentação de simpósios, seminários, colóquios, palestras, um sem-número de eventos universitários. Isso sem falar nos eventos informais, que são óbvios ritos de passagem: os trotes, as chopadas, os churrascos. Para quem os ORGANIZA, fica claro que a preocupação com o pré, o durante e o pós-evento impõe um planejamento e uma infra-estrutura sem os quais existe a possibilidade de nada ocorrer.

Se a profissão dos chefes, assessores e agentes de C & P é auxiliar os governantes estatais, eclesiais, empresariais, sua função social é também digna de nota: admoestar seus amigos, parentes e conhecidos da importância da preparação e programação — do layout, diriam os anglófonos — dos eventos familiares, estudantis, corporativos etc.

Estive falando brevemente dos assuntos ora abordados com o caro Jornalista Aristóteles Drummond, em seu programa “O Brasil é isso”, da Rede Vida de Televisão (Outubro/2010). Em dado momento, ele me perguntou se eu achava que os governantes brasileiros cada vez mais davam importância ao Cerimonial e ao Protocolo, sobretudo porque nosso País sediará megaeventos esportivos e culturais na década de 2010. Não pude responder pormenorizadamente, até pela exigüidade do tempo. Mas não creio nisso, infelizmente. Aristóteles Drummond chegou a comentar que sabia de governadores que estavam nomeando embaixadores brasileiros aposentados como chefes de Cerimonial dos Executivos Estaduais. Creio que seja a exceção da regra. Para azar do Brasil, deve-se dizer.

Pois o desempenho e os encargos de um chefe de C & P, bem como de seus assessores e agentes, são extremamente diplomáticos, e envolvem conhecimentos de Relações Públicas, Relações Internacionais e Ciências Sociais de grande monta. Creio não ser nem de longe necessário comentar o que penso sobre não haver concurso para os departamentos de C & P que existem nos Três Poderes, nas três instâncias (federal, estadual, municipal). Alocar nesses órgãos, por indicação política, pessoas alheias a sua complexidade ou inaptas as suas funções é não apenas comprometer a estrutura organizacional, como também propiciar a visitantes ilustres (estrangeiros ou nacionais) alguns “maus bocados”...

Quando assisti à Chefia para Assuntos de Cerimonial da Presidência da ALERJ, entre 2004 e 2008, presenciei de tudo um pouco. Alguns deputados que sofrem de insuficiência cognitiva e falta de instrução educacional, chefes de gabinete grotescos e ávidos de poder, assessores parlamentares néscios e toscos — muitos dos quais me inspiravam mais compaixão do que raiva —, servidores de carreira tipicamente mal-acostumados com as benesses administrativas, enfim um “vale de lágrimas” no quesito excelência qualitativa. A exceção à regra era, geralmente, constituída dos diretores departamentais, pessoas amplamente assoberbadas pela incapacidade de seus subordinados.

Certa feita, um funcionário da Assembléia parece ter provocado nossa antiga chefe, Profª. Vera Jardim, dizendo que o Parlamento Fluminense deveria ter uma “diretoria de Eventos”, numa demonstração clara e inequívoca da ignorância e do senso-comum sobre os afazeres dos chefes, assessores e agentes de C & P. Aproveito a ocasião para render minhas homenagens à querida Vera, uma apaixonante workaholic!

A crítica acérrima ora proferida não visa atacar as instituições democráticas brasileiras e a ascensão eleitoral de nossos governantes. Muito pelo contrário! Ademais, não se dirige somente a eles...

Vejo falta de respeito, de apego, mas, sobretudo, de conhecimento, no que tange à Etiqueta, ao Cerimonial e ao Protocolo em diversos setores de nossa sociedade: nas religiões institucionalizadas, nas agremiações culturais e desportivas, nas escolas públicas e privadas, nas universidades, nas ONGs e até nos condomínios!

É necessária uma valorização do humano e uma ecovisão onde a polidez, a lhaneza e a cortesia constituam um imperativo categórico, no dizer kantiano. Para tanto, urge que os comandantes, os dirigentes, os governantes concentrem seus esforços e atenções na Educação. Fiquei realmente emocionado quando ouvi nossa Presidenta Dilma Rousseff declarar no Discurso da Mesa Diretora do Congresso Nacional, em sua belíssima Cerimônia de Investidura, que “só existirá ensino de qualidade se o professor e a professora forem tratados como as verdadeiras autoridades da educação!”

Destarte, concluo rogando aos nossos arcontes e hierarcas que tomem consciência da precisão e da imperatividade do Cerimonial e do Protocolo, não permitindo que incumbências tão elevadas sejam minimizadas na Administração Pública, direta ou indireta. E que haja investimentos na devida formação e capacitação dos que são chamados a trabalhar na área.


* Artigo enviado aos associados e amigos do Instituto D. Isabel I em janeiro de 2011.
As opiniões expressadas são as do Autor, não evidenciando o pensamento dos demais membros do IDII.

** Bruno da Silva Antunes de Cerqueira (31) é graduado em História pela PUC-Rio, pós-graduado em Relações Internacionais pela  UCAM e bacharelando em Direito pela PUC-Rio. É o gestor do Instituto Cultural D. Isabel I a Redentora e do Programa de Relações Públicas e Internacionais, Cerimonial e Protocolo do IDII

sábado, 1 de janeiro de 2011

Ser nobre, ser pobre




Ser pobre é uma honra.
Madre Maria Celeste, superiora das Irmãs Franciscanas Alcantarinas

Ser nobre é uma honra.
Papa Pio XII (1876-1958)



Em 2009, Danuza Leão lamentou em crônica a decadência de nossa atual (alta) sociedade em seus valores argentocêntricos, lembrando, com saudade, do tempo em que “ser nobre” era o bom, ainda que o “nobre“ fosse pobre. Está certíssima!

Nos dias que correm, podemos cada vez mais perceber a abundância de dois tipos de personalidade negativa e, infelizmente, a grande ausência de dois tipos de personalidade positiva. Respectivamente, trata-se dos podres-ricos e ricos-podres e, de outro lado, dos nobres-pobres e pobres-nobres.

Explico as categorias. Como toda mente eivada do racionalismo ocidental, ainda que se queira mais pneumática e menos problemática, mais cordial e menos intelectiva, sinto-me tolhido a ver o mundo categorizando tudo e todos. Mesmo que as categorias sejam relativas... 

As seguintes categorizações são muito orientadas para o viés político, mesmo que as imagine também de forma filosófica e teológica e que preferisse investir em suas descrições mais ao modo tomista, do que ao modo meramente politizante.

O podre-rico nasceu na pobreza, ascendeu socialmente por vias tortuosas e quase sempre inescrupulosas; uma vez chegado aos píncaros do que sequer podia imaginar em sua infância, se volta com todo ódio, consciente ou inconscientemente, aos seus irmãos de origem, não somente renegando-os como ajudando a espezinhá-los, seja através da ação ou da inação política e econômica.

Rico-podre é aquele que nasceu em berço esplêndido, gozou de uma infância feliz – ao menos materialmente feliz –, cresceu e obteve ótimos resultados em seus percursos acadêmicos e agora é um exímio profissional em sua área. Ganha dinheiro. É incapaz, contudo, de sofrer pelo Outro, de sentir o Outro, não se importa e nada faz pelos que sofrem, mendigam, vagam, padecem.

Já o nobre-pobre nasceu em boa linhagem, desprovida, contudo, de grandes recursos. Cresceu e se desenvolveu com algumas dificuldades, mas se tornou um bom e reconhecido profissional. Tenta manter o lustro de seus antepassados e faz da Caridade o cerne de sua vida cotidiana, seja através da religião que professa ou dos grupos sociais em que atua, defendendo e amparando os que nada ou quase-nada possuem. Para o nobre-pobre não é fácil ganhar dinheiro, eis que o vil metal lhe pesa sobremaneira.

E o pobre-nobre? É o excelso tipo de pessoa que nasce na miséria ou na pobreza, cresce e se desenvolve, obtém diplomas com grande dificuldade e se torna um profissional modelar. Sua vida é uma dedicação sem-fim aos seus irmãos de origem, seja na advocacia de seus direitos e na melhoria de suas condições de vida ou na coordenação das mais variadas propostas de inclusão social.  Também vejo o pobre-nobre como aquele que não conseguiu ascender, preso às amarras de sua honestidade e aos fantasmas de seus escrúpulos.

No primeiro grupo estão, para grande desespero de todos os cidadãos brasileiros, a maioria dos membros de nossas classes dirigentes, na federação, nos estados e nos municípios. Conheci dezenas deles nos 4 anos de prestação de serviços para o Cerimonial da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

No segundo grupo vemos, também para nosso grande pesar, os membros da alta burguesia brasileira, alienada de suas funções sociais, plenamente afastada do mecenato artístico e cultural, incapaz de patrocinar projetos de Educação e Saúde, mesmo quando haja a isenção fiscal concedida pelas recentes legislações. Empresários incapazes de construir escolas, creches ou hospitais sem que isso reverta em lucros e dividendos. Incapazes de seguir os exemplos de Candido Gaffrée (†1919) e Guilherme Guinle (1882-1960), dentre outros.

No terceiro grupo estão – ou deveriam estar –, dentre os brasileiros, os membros da antiga aristocracia rural – descendente dos barões, condes ou marqueses titulados por D. João VI, D. Pedro I, D. Pedro II e D. Isabel (I) ou dos capitães, coronéis e demais fidalgos do Brasil-Colônia – mas também os burgueses provenientes de religiosíssimos troncos imigrantes. Este grupo reconhece tácita ou explicitamente sua mais-que-natural chefia na Família  Imperial brasileira, uma estirpe de notória carência de recursos econômicos – obviamente me ocorre a imagem de D. Pedro Henrique, neto e sucessor da Redentora. Creio conhecer um número considerável de nobres-pobres.

Por fim, na quarta tipificação está o íntegro cidadão que honestamente ascendeu – me vem à mente o Ministro Joaquim Barbosa (STF) –, tanto quanto o trabalhador que não consegue “subir na vida” porque não admite a trapaça, a desfaçatez, a ladroagem. Resumidamente, o indivíduo que recusa o mundo, ao menos em parte. Lembro-me de Rosinete de Jesus, que me auxilia às vezes nos serviços do IDII. Mora com as irmãs franciscanas alcantarinas no Méier (zona norte do Rio) e sonha com um mundo novamente cristão, onde todos se veriam iguais na diferença, todos amantes absolutos de Deus e do Gênero Humano.

Falta, entretanto, uma categoria, e o leitor atento certamente me instará. Onde o rico-nobre? E o nobre-rico? Fundo-os e já me adianto na resposta. O rico que é verdadeiramente nobre sente-se mal em ser rico. Não estou valorando apenas financialmente, embora também esteja aludindo a pecúnias, claro. Buscando a santidade, o nobre-rico necessariamente se torna um nobre-pobre, pelo Amor de Deus, ao menos no Cristianismo que dizemos professar. Jesus foi claro ao dizer ao jovem rico do Evangelho de São Mateus que convertesse suas riquezas mundanas em bens dos pobres e O seguisse. Evidente que o mesmo Deus-Homem também declarou que sempre existiriam pobres e ricos (S. Marcos, 14:7).

Sempre comento com os amigos que apreciam minhas insanas divagações pseudo-teológicas que a Doutrina Social da Igreja Católica não condena a existência da pobreza e da riqueza como marcas sociais, mas certamente rechaça que existam milionários e miseráveis, que são, aliás, faces da mesma moeda: o pecado humano.

Daí que o nobre-rico necessariamente seja um converso profundo, algo raríssimo nos dias que correm, cada vez mais argentocêntrico, como disse no início da postagem.

Exemplos como os de Francisco e Clara de Assis, Isabel da Hungria, Edwiges da Silésia, além do próprio São Mateus Evangelista já citado, que era um publicano infiel antes da graça de conhecer e aderir ao Cristo, são pouquíssimo existentes em nossa época. Não à toa Madre Teresa de Calcutá (Agnes Gonxha Bojaxhiu), nascida em aristocrática família cristã de etnia albanesa, é exemplo para a humanidade do século XX.

Quem me lê já deve ter percebido as falhas no ementário ora proposto, mas ele não visa à sistematização. Isso seria outra tarefa, não a atual.

Quis apenas iniciar o novo Ano com uma antiga ruminação que me persegue e assim expor aos meus caros amigos ideias a criticar e sugerir.

Lef Nicolaievitch, Prince Myshkin

(...) was a young fellow, also of about twenty-six or twenty-seven years of age, slightly above the middle height, very fair, with a thin, pointed and very light coloured beard; his eyes were large and blue, and had an intent look about them, yet that heavy expression which some people affirm to be a peculiarity. as well as evidence, of an epileptic subject. His face was decidedly a pleasant one for all that; refined, but quite colourless, except for the circumstance that at this moment it was blue with cold. He held a bundle made up of an old faded silk handkerchief that apparently contained all his travelling wardrobe, and wore thick shoes and gaiters, his whole appearance being very un-Russian.